Wi-Fi ligado a Dark Horse pagou R$ 2 mi a empresa de suspeito do PCC sem instalar pontos


Por Cleber Lourenço

A Favela Conectada, empresa que tinha como único sócio Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado por órgãos de inteligência policial como integrante do PCC, recebeu R$ 2 milhões do Instituto Conhecer Brasil (ICB) em julho de 2025, em um ciclo no qual a própria documentação da empresa registra zero novos pontos de Wi-Fi instalados. O pagamento ocorreu no contrato de internet gratuita da Prefeitura de São Paulo que passou a integrar as investigações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse.

O valor aparece em dois conjuntos de documentos analisados pela reportagem. Um relatório quantitativo associado à Nota Fiscal nº 67, com referência a 7 de julho de 2025, registra: “VALOR RECEBIDO NF 67 R$ 2.000.000,00”. Na mesma página, o campo destinado às instalações informa: “TOTAL DE PONTOS INSTALADOS 0”. O documento contabiliza 831 pontos acumulados e uma previsão de 903 instalações.

O extrato bancário da conta usada pelo ICB no projeto confirma a movimentação. Em 7 de julho de 2025, foi feita uma TED de R$ 2 milhões para a Favela Conectada, identificada pelo CNPJ 38.202.110/0001-09. No mesmo dia, a conta também transferiu R$ 2 milhões para a UltraIP e R$ 980 mil para a FastFuture.

O relatório não permite concluir que os R$ 2 milhões foram pagos exclusivamente pela instalação de novos pontos. O próprio documento informa que a prestação de serviços também envolvia operação, manutenção preventiva e corretiva, monitoramento, software, desinstalação e reinstalação. O dado documentado, porém, é que a empresa registrou um recebimento de R$ 2 milhões em um ciclo no qual não contabilizou nenhuma nova instalação.

Favela já havia recebido R$ 3,37 milhões

A NF 67 não foi o primeiro pagamento à empresa. Imediatamente antes dela, a própria documentação registra “SALDO ANTERIOR RECEBIDO R$ 3.372.420,95”.

Os relatórios permitem acompanhar a evolução desse valor. Em novembro de 2024, a documentação da Favela Conectada registrava R$ 500 mil recebidos. Em dezembro, o saldo acumulado havia chegado a R$ 927.976,50. Nos meses seguintes aparecem novos recebimentos de R$ 666.666,67, R$ 611.111,11 e outros valores. Em 4 de julho de 2025, três dias antes do pagamento de R$ 2 milhões, a NF 65 registrou mais R$ 500 mil. O acumulado então alcançou os R$ 3,37 milhões.

Depois da NF 67, o saldo anterior registrado no relatório seguinte salta exatamente para R$ 5.372.420,95 — os R$ 3,37 milhões anteriores acrescidos dos R$ 2 milhões pagos em julho.

Os pagamentos continuaram. A NF 69 registra outros R$ 1.095.764,35. Já a NF 71 aponta mais R$ 1.211.814,70. Com isso, a sequência documental analisada pela reportagem alcança R$ 7,68 milhões recebidos pela empresa.

Sócio é apontado como integrante do PCC

Durante todo o período desses pagamentos, Alex Leandro Bispo dos Santos ainda figurava formalmente como dono da Favela Conectada. Os registros societários mostram que ele deixou a empresa apenas no fim de dezembro de 2025, quando Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes passou a integrar a sociedade. A mudança foi registrada na Junta Comercial em janeiro deste ano.

Alex é citado em decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no contexto da investigação que alcançou Dark Horse. Segundo a decisão, órgãos de inteligência policial o apontam como integrante relevante do PCC em São Paulo. Dino mencionou a existência de indícios de atos interligados à facção ao avaliar a conexão entre diferentes frentes da investigação.

Alex nega ter ligação com a organização criminosa. A suspeita já havia sido levantada anteriormente por integrantes do Ministério Público de São Paulo e por órgãos policiais.

A empresa mudou posteriormente de nome para Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. O inquérito da Polícia Civil inclui a antiga Favela Conectada entre as empresas cujo fluxo financeiro com o ICB é objeto de apuração.

Contrato do Wi-Fi entrou no caso Dark Horse

O ICB, presidido por Karina Ferreira da Gama, foi contratado pela Prefeitura de São Paulo em junho de 2024 para implantar e operar inicialmente 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades da capital. O ajuste tinha valor global de R$ 108 milhões.

Karina também controla a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A sobreposição entre as empresas e entidades comandadas por ela levou investigadores a apurar se recursos públicos circularam entre pessoas jurídicas relacionadas ao projeto de Wi-Fi e à produção cinematográfica. A hipótese é investigativa e, até o momento, não há comprovação de que recursos municipais tenham sido usados no filme.

Em setembro, ao analisar os diferentes procedimentos, Flávio Dino afirmou haver indícios de um “só sistema delitivo” e citou a possível conexão de atos investigados com o PCC. A Polícia Federal passou a atuar na apuração, que reúne suspeitas envolvendo o ICB, fornecedores do projeto de Wi-Fi, emendas parlamentares e empresas relacionadas à produção de Dark Horse.

Nos autos da investigação paulista, a Polícia Civil afirma que busca justamente reconstruir o destino dos recursos repassados ao ICB e o fluxo financeiro mantido com suas empresas subcontratadas. Entre elas está a Urban Connect, antiga Favela Conectada, que recebeu os R$ 2 milhões no ciclo em que sua própria documentação registrou nenhuma nova instalação.





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