A inserção da juventude brasileira no mundo do trabalho é atravessada por barreiras estruturais, disparidade de renda e um profundo abismo de oportunidades entre as classes sociais. Os dados da pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, promovida pelo Observatório Fundação Itaú em parceria técnica com o Datafolha e o Instituto Locomotiva, revelam que 70% da população entre 16 e 29 anos está ocupada no mercado de trabalho ou em estágios. No entanto, a forma como essa rotina se desenrola varia drasticamente a depender da faixa de renda familiar.
A possibilidade de permanecer na sala de aula enquanto se desempenha uma atividade remunerada é um privilégio concentrado nos topos da pirâmide social. Nas faixas mais abastadas (classes A e B), 48% dos jovens conseguem manter o fluxo simultâneo entre emprego e formação acadêmica. Por outro lado, quando o recorte recai sobre as famílias de menor poder aquisitivo (classes D e E), essa proporção despenca para meros 16%.
Para a parcela mais vulnerável da população, a obrigação de obter renda imediata para garantir a subsistência básica do lar sobrepõe-se à continuidade da jornada educacional. Quase metade (47%) dos jovens das faixas D e E dedica-se de maneira exclusiva ao trabalho, ante 28% observados nas classes A e B. Esse afunilamento precoce prejudica o acesso do operariado jovem a diplomas do ensino superior e à formação continuada, perpetuando o ciclo de baixa remuneração e precarização das vagas ocupadas.
O recorte de raça também expõe as distorções históricas do mercado brasileiro: enquanto 38% dos jovens brancos conseguem conciliar estudos e ocupação profissional, entre a juventude negra o índice cai para 29%.

Trabalho de cuidado invisível e sobrecarga sobre as mulheres
Além das exigências do mercado formal e da sala de aula, a pesquisa coloca em evidência a carga de afazeres domésticos e de cuidado não remunerado que recai desproporcionalmente sobre o contingente feminino. Metade de todos os entrevistados declarou ser responsável pela gestão e manutenção da casa, mas o recorte por gênero escancara a divisão desigual do trabalho: 60% das mulheres realizam tarefas do lar, contra 40% dos homens.
A disparidade é ainda mais marcante quando se avalia o cuidado direto de dependentes, como crianças, idosos ou familiares enfermos. Essa atribuição é assumida por 28% das jovens entrevistadas, o dobro do percentual registrado entre os homens (14%). Essa sobrecarga invisível consome o tempo livre e a energia que poderiam ser destinados à qualificação técnica ou ao descanso.
Falta de experiência e busca por autonomia
O ingresso no primeiro emprego permanece como um dos principais gargalos enfrentados por quem busca oportunidade. A ausência de experiência prévia foi apontada por 49% dos entrevistados como a maior barreira para conquistar uma vaga, superando a concorrência direta (39%), os custos de deslocamento (28%) e a falta de qualificação técnica (25%). Sem mecanismos públicos consolidados de apoio ao primeiro emprego, 77% dos jovens recorrem ao “QI” (quem indica), dependendo de redes de contatos e indicações familiares para ingressar em uma atividade remunerada.
Mesmo diante do desejo por estabilidade no curto prazo, com 30% almejando a carteira assinada atualmente, as projeções para os próximos cinco anos revelam uma fuga do modelo tradicional. No horizonte de cinco anos, a preferência por empregos formais cai para 16%, enquanto a busca pelo trabalho autônomo e pelo empreendedorismo salta de 28% para 42%. Essa perspectiva reflete a insatisfação com ambientes corporativos de alta pressão e baixa remuneração: 62% declararam que aceitariam remunerações menores em troca de locais de trabalho com menos estresse.
Paralelamente, o avanço da automação e da inteligência artificial surge como fonte constante de apreensão. Embora 97% utilizem ferramentas digitais para se capacitar, 90% acreditam que a inteligência artificial eliminará postos de trabalho no país e 50% temem perder oportunidades em razão das novas tecnologias, um impacto sentido diretamente em funções de entrada e suporte administrativo.





