A caverna de Platão XXI


Por Carlos Castelo

Num lugar remoto (talvez no subsolo de um shopping center) havia um grupo de pessoas que nasceram e cresceram acorrentadas em frente a uma parede de concreto. Não sabiam o que era o mundo exterior, mas isso não incomodava ninguém, porque a parede transmitia 24 horas por dia uma mistura de TikToks, podcasts de gente opinando sobre o que não entende, e reality shows em que as pessoas discutem sobre quem pegou o sabão no chão do box na noite anterior.

As correntes eram simbólicas. O fogo atrás deles, gerado por um projetor 4K ligado num roteador. O projetor passava sombras. Mas eram sombras em HD: incluindo influenciadores com filtro, discursos editados, opiniões mastigadas com legenda em português de Portugal. Uma verdadeira festa de ilusões.

Até que um dia, um dos prisioneiros, vamos chamá-lo de Heitor, decide sair dali. Num acesso de tédio, se solta. Literalmente, tira os fones de ouvido.

Sai da caverna. Dá de cara com o Sol. Toma um choque. Seus olhos ardem, ele tropeça num patinete elétrico e é abordado por um coach, em carne e osso, oferecendo um e-book gratuito de autoconhecimento.

Aos poucos, Heitor começa a entender. Árvores não têm retoque. As pessoas têm espinhas. Nuvens não fazem coreografia. O mundo real é confuso, imperfeito, mas fascinante. Ele vê uma criança rindo de verdade (sem estar gravando reels), uma senhora cuidando de plantas sem hashtags, e descobre que comida pode vir sem embalagem nem QR code.

Empolgado, Heitor volta à caverna.

– Galera! Tudo que a gente vê aqui são sombras! O mundo real é lá fora! A vida é mais do que opiniões nas redes sociais!

Silêncio.

Um dos prisioneiros levanta os olhos do feed e pergunta:

⁃   Mas tem TikTok lá fora?

⁃  Não, mas tem árvores!

⁃  Elas têm carregador USB?

⁃  Não, têm passarinhos! De verdade! Com penas e tudo!

⁃  Ai, credo. Aves não verificadas? Sai fora.

Heitor tentou argumentar, filosofar, mostrou até uma folha de verdade. Mas acabou confundido com um vendedor de plano de dados e, por fim, cancelado por todos.

E assim seguimos.

O mito da caverna hoje não está mais relacionado com ignorância. É uma escolha consciente da cegueira com entrega em domicílio e cashback. Porque sair da caverna dá trabalho. Tem sol demais, gente demais, e nenhum botão de “pular intro”.

Então a pergunta que fica é:

Você quer a verdade? Ou prefere viver em HD?





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