Percebemos como as coisas estão a mudar na Europa quando vemos à nossa volta o discurso público dominado pela ideia de segurança. Segurança militar, segurança económica, segurança energética, segurança digital, segurança das fronteiras, segurança das ruas. A segurança está por toda a parte. Invadiu o vocabulário político, ocupa os debates televisivos, multiplica especialistas, observatórios, conferências e cursos universitários. Há cursos de segurança, estudos de segurança, políticas de segurança, estratégias de segurança — e quase não há cursos sobre a liberdade. É talvez um sinal do nosso tempo: estudamos obsessivamente aquilo que nos deve proteger e cada vez menos aquilo que merece ser protegido. A segurança tornou-se uma disciplina; a liberdade, quase uma recordação.
A palavra parece ter-se tornado irresistível para todos – para a direita que sempre a cultivou e agora também para a esquerda social-democrata ansiosa por se juntar à manada. Há nisto, mais do que ironia, uma particular tristeza política. A esquerda, europeia que durante gerações fez da liberdade, dos direitos individuais e da resistência ao abuso do poder parte essencial da sua identidade, parece hoje disposta a juntar-se à direita no altar da segurança. Em vez de disputar a primazia da liberdade, disputa agora quem oferece mais proteção, mais vigilância, mais controlo, mais autoridade. Não é apenas uma mudança de programa; é uma desistência intelectual.
O medo é um extraordinário produtor de poder. Cada ameaça justifica uma nova vigilância. Cada perigo reclama mais informação. Cada crise exige mais poderes de excepção. Cada inimigo torna tolerável uma nova restrição. E quase todas essas limitações chegam acompanhadas da mesma promessa: cedam-nos apenas um pouco mais de liberdade e devolver-vos-emos mais segurança. E no entanto quem já viveu um pouco sabe bem que a liberdade entregue provisoriamente ao poder nem sempre regressa quando termina a emergência. Este é o paradoxo fundamental: quando levamos a segurança até ao absoluto, destruímos precisamente aquilo que pretendíamos tornar seguro – a liberdade individual.
E a esquerda? Onde está a esquerda social-democrata que nasceu na Europa e se separou do marxismo precisamente porque recusou sacrificar a liberdade individual a qualquer promessa de igualitarismo social? Onde está a tradição política europeia que compreendeu que nenhum bem coletivo autoriza o esmagamento do indivíduo? No momento em que a segurança se transforma no grande valor político do nosso tempo, essa esquerda europeia parece ter perdido a voz — ou, pior ainda, ter esquecido aquilo que historicamente justificou a sua existência.
Não sei se devemos chamar-lhe oportunismo, medo eleitoral ou simplesmente falência programática. Talvez seja sobretudo uma perda de identidade. Quando esquerda e direita passam a falar a mesma linguagem da segurança, desaparece do debate político precisamente a voz que deveria recordar que os direitos foram criados não para facilitar o exercício do poder, mas para lhe impor limites. É uma estranha inversão: a esquerda que desconfiava da polícia, dos serviços secretos, da censura, da vigilância e da razão de Estado descobre agora as virtudes do poder coercivo; e a segurança, que durante tanto tempo foi a palavra preferida da ordem conservadora, transforma-se num idioma comum a quase todo o espectro político.
A vitória da direita securitária não foi convencer os seus eleitores de que a segurança vem primeiro; foi convencer uma parte da esquerda de que também ela deveria acreditar nisso. Talvez seja esse o problema mais profundo: não estamos apenas perante uma esquerda que abandonou a liberdade, mas perante uma esquerda que começou a ter medo dela. Não, não acredito em nenhuma segurança sem liberdade. Acredito, isso sim, que só a liberdade dá segurança e esse é, para mim, o valor primeiro da política democrática.





