A imprensa brasileira precisa pedir desculpas


Por Cleber Lourenço

O Brasil está novamente diante da possibilidade de entregar o poder a um projeto político identificado com a extrema-direita. E, enquanto esse risco é discutido como se estivéssemos diante de mais uma disputa eleitoral convencional, os Estados Unidos oferecem uma demonstração concreta do que pode acontecer quando discursos autoritários deixam os palanques, passam a orientar decisões de governo e recebem uma nova autorização das urnas.

Donald Trump voltou à Casa Branca pelo voto. Desde então, seu governo se envolveu numa guerra contra o Irã, ampliou ameaças militares e intensificou disputas sobre os limites do poder presidencial. Sem falar das invasões, bombardeios e sequestro de autoridades estrangeiras. No próprio território americano, Trump chegou a ameaçar negar apoio federal a um estado caso candidatos democratas fossem eleitos. Seu governo também tentou ampliar o controle sobre cadastros eleitorais estaduais, numa iniciativa considerada ilegal pela Justiça. A preocupação já não está apenas no que um presidente diz, mas naquilo que tenta fazer com o poder que recebeu.

Há algo profundamente perturbador na facilidade com que acontecimentos dessa gravidade são absorvidos pela rotina política. Uma ameaça vira declaração polêmica. Uma tentativa de ultrapassar limites institucionais vira embate entre poderes. Uma agressão a direitos fundamentais vira controvérsia ideológica. Tudo encontra seu lugar na programação, seu espaço no debate e, no dia seguinte, uma nova manchete que ajuda a tornar a anterior menos extraordinária.

A imprensa não é responsável, sozinha, pela ascensão de movimentos autoritários. Mas a indústria da comunicação precisa responder pela maneira como os apresenta, pelos comportamentos que relativiza e pelas fronteiras que ajuda a deslocar entre aquilo que uma sociedade considera inaceitável e aquilo que passa a tratar como parte normal da política.

E, por isso, como jornalista, acredito que chegou a hora de pedir desculpas.

Não em nome de todos os profissionais. Existem jornalistas extraordinários, alguns dos melhores que este país já produziu, que investigam poderosos, enfrentam ameaças e dedicam suas vidas a informar a sociedade, inclusive, estão aqui no ICL. Já em outros casos, muitos precisam, inclusive, enfrentar as próprias estruturas empresariais para conseguir exercer o jornalismo em que acreditam. São profissionais que continuam procurando a verdade mesmo quando sua publicação contraria interesses políticos, econômicos ou as expectativas do próprio público. Também não faço esse pedido de desculpas por mim.

O pedido de desculpas é em nome de uma indústria da qual faço parte. Uma indústria que, durante décadas, confundiu audiência com relevância, espetáculo com informação e conveniência com responsabilidade. Que transformou a notícia em mercadoria e frequentemente preferiu administrar a aparência de equilíbrio a enfrentar as consequências de dizer claramente aquilo que os fatos demonstravam.

Infelizmente eu faço parte de uma indústria que já apoiou golpes de Estado, ajudou a silenciar mobilizações democráticas, manipulou a apresentação de debates eleitorais, transformou inocentes em culpados e deu enorme repercussão a mentiras e discursos autoritários. Uma indústria que fabricou controvérsias onde os fatos não deixavam dúvidas, tratou ameaças à democracia como divergências políticas convencionais e, tantas vezes, deixou de explicar as transformações profundas que aconteciam no país enquanto se ocupava de produzir o próximo espetáculo.

Não chegamos até aqui por causa de um único erro. O que vemos hoje é resultado de um processo lento, longo e repetitivo de fracassos. Fracassos que a indústria da comunicação raramente reconheceu, quase nunca corrigiu e, em muitos casos, passou a reproduzir sob justificativas cada vez mais sofisticadas. Do colapso do sistema político às verdades sobre a real capacidade do país e os perigos que efetivamente enfrentamos, a imprensa frequentemente preferiu o espetáculo à explicação.

E talvez o instrumento mais conveniente dessa engrenagem tenha sido justamente aquele que a indústria aprendeu a apresentar como sua maior virtude: a imparcialidade.

Construiu-se a ficção de que o jornalista seria uma criatura desprovida de história, crenças, convicções e percepções. Alguém capaz de observar a realidade de um lugar imaginário, acima das contradições humanas, e transmitir os acontecimentos sem que suas escolhas interferissem na maneira como seriam compreendidos.

Mas esse jornalista não existe.

Todo profissional escolhe o que investigar, a quem perguntar, quais documentos examinar, que contradições destacar e que acontecimentos merecem chegar ao público. Essas decisões são atravessadas por experiências, valores e conhecimentos. É justamente por isso que o jornalismo precisa de rigor, transparência, verificação e abertura ao contraditório. A objetividade deve ser uma disciplina de trabalho, não uma fantasia sobre a ausência de convicções.

Em algum momento, porém, a indústria transformou a imparcialidade em um álibi. Uma palavra capaz de conferir respeitabilidade à omissão e de esconder, sob a aparência de neutralidade, escolhas editoriais que nunca foram neutras.

Consolidou-se a ideia de que apresentar dois lados seria suficiente para cumprir a obrigação de informar. Mesmo quando um deles sustentava uma afirmação comprovada e o outro oferecia uma mentira demonstrável. Mesmo quando aquilo que se apresentava como opinião defendia a perseguição de pessoas, a supressão de direitos ou a ruptura das regras democráticas.

A liberdade de expressão garante o direito de alguém defender ideias profundamente equivocadas. Não impõe ao jornalismo a obrigação de tratá-las como verdadeiras, razoáveis ou equivalentes aos fatos. E muito menos exige que a dignidade humana seja submetida a um debate permanente, como se o direito de determinadas pessoas existirem em igualdade de condições dependesse da aprovação de uma bancada de comentaristas.

O problema é que a indústria da comunicação nem sempre foi cuidadosa com aquilo que deveria proteger. E basta percorrer algumas páginas da história brasileira para perceber que seus fracassos estão longe de ser acontecimentos isolados.

Em 1954, setores influentes da imprensa participaram da campanha política que pressionou pela saída de Getúlio Vargas, em meio à crise desencadeada pelo atentado da Rua Tonelero. Dez anos depois, grandes jornais apoiaram a deposição de João Goulart e saudaram a intervenção militar que inauguraria uma ditadura de 21 anos. Jornais chegaram a celebrar o golpe e a supressão das liberdades democráticas com editoriais, um deles inclusive intitulado “Ressurge a Democracia”. Somente no século seguinte o veículo reconheceria publicamente que seu apoio à ruptura constitucional havia sido um erro.

Na década de 1980, quando multidões ocupavam as ruas exigindo o direito de escolher o presidente da República, veículos restringiram a cobertura nacional das Diretas Já. No comício da Praça da Sé, em janeiro de 1984, um dos principais telejornais do país apresentou a manifestação numa reportagem associada às comemorações do aniversário de São Paulo. O objetivo político do ato foi mencionado, mas o enquadramento provocou uma controvérsia que se tornaria símbolo da resistência inicial da emissora em dar dimensão nacional à campanha.

Cinco anos depois, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a edição televisiva do último debate entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva favoreceu a imagem de Collor, ao selecionar momentos de melhor desempenho de um candidato e passagens desfavoráveis ao outro. A manipulação editorial se tornou um dos episódios mais conhecidos da interferência dos meios de comunicação numa disputa eleitoral brasileira.

Collor venceu a eleição e, poucos meses depois, determinou o bloqueio de grande parte dos depósitos bancários e aplicações financeiras, atingindo milhões de brasileiros que perderam o acesso às próprias economias. O episódio é um exemplo de como uma escolha editorial pode interferir na percepção pública de uma disputa com consequências profundas para o país.

Em 1994, foi a vez de seis pessoas ligadas à Escola Base, em São Paulo, terem suas vidas devastadas por acusações de abuso sexual contra crianças. A cobertura transformou suspeitas em condenações públicas antes da conclusão das investigações. A escola foi depredada, famílias foram destruídas e reputações ficaram marcadas por uma acusação que não encontrou sustentação nas provas. Meses depois, o inquérito foi arquivado. O estrago, evidentemente, não pôde ser arquivado junto com ele.

Décadas depois, durante a pandemia de Covid-19, declarações de Jair Bolsonaro que minimizavam a gravidade da doença, promoviam tratamentos sem eficácia comprovada e confrontavam recomendações sanitárias receberam ampla repercussão. Houve veículos que investigaram, contextualizaram e contestaram essas afirmações. Mas houve também coberturas que reproduziram declarações presidenciais como acontecimentos autossuficientes, transformando alegações sem respaldo científico em material de circulação nacional.

É nesse ambiente que prosperou aquilo que se convencionou chamar de jornalismo declaratório. Uma prática em que a declaração de uma autoridade, por mais falsa, ofensiva ou desprovida de fundamento que seja, transforma-se em notícia simplesmente porque foi pronunciada. A frase vira manchete, a manchete vira repercussão, a repercussão alimenta novas declarações e o ciclo se repete. A verificação, quando aparece, muitas vezes chega depois que a afirmação já percorreu o país.

O problema não está em noticiar o que uma autoridade diz. Suas declarações podem revelar intenções, orientar políticas públicas e produzir consequências reais. O problema começa quando a reprodução substitui a apuração e a relevância de uma fala passa a ser medida pelo escândalo que provoca, não pela informação que oferece.

O jornalismo declaratório é especialmente conveniente para uma indústria que precisa produzir conteúdo sem interrupção. Uma frase absurda rende manchetes, debates, comentários, reações e novos desdobramentos. É um produto barato, abundante e capaz de atrair atenção. A investigação exige tempo, dinheiro, conhecimento e disposição para contrariar interesses. A declaração precisa apenas de alguém disposto a pronunciá-la.

O apoio a uma ruptura institucional, a cobertura insuficiente de uma mobilização democrática, a edição tendenciosa de um debate eleitoral, a condenação pública de inocentes e a reprodução acrítica de declarações representam falhas de naturezas distintas. Mas revelam como escolhas editoriais podem subordinar o dever de informar a interesses políticos, comerciais ou à própria lógica de produção de notícias.

A experiência política deveria ter ensinado que uma barbaridade não se transforma em ideia respeitável porque alguém foi eleito para defendê-la. E a história da humanidade oferece razões suficientes para levar essa diferença a sério.

Na Alemanha dos anos 1930, o antissemitismo, a perseguição política e a retirada progressiva de direitos foram acompanhados por uma máquina de propaganda que contribuiu para normalizar a desumanização. O nazismo foi um fenômeno histórico específico, e banalizar suas características seria outro erro. Mas sua história demonstra como a comunicação pode preparar uma sociedade para aceitar violências que, em outras circunstâncias, provocariam indignação.

A desumanização não começa necessariamente quando alguém é agredido. Pode começar quando a perseguição passa a ser descrita como uma solução política, quando a retirada de direitos recebe o nome de reorganização social e quando o sofrimento de determinados grupos deixa de produzir qualquer constrangimento.

O jornalismo não pode tratar esses processos como simples diferenças de opinião. Não porque deva defender um partido ou uma ideologia, mas porque existem compromissos anteriores às disputas eleitorais: a dignidade humana, a igualdade perante a lei, a liberdade e o direito de viver sem perseguição.

Uma indústria que reivindica para si a missão de informar não pode se comportar como um restaurante encarregado de servir ao público as notícias que ele gostaria de consumir, preparadas exatamente para confirmar suas crenças. Tampouco pode funcionar como uma máquina que despeja declarações sem investigar sua origem, sua veracidade e suas consequências.

Informar não é agradar. Ouvir não significa concordar. E apresentar o contraditório não exige fingir que a verdade e a mentira possuem o mesmo valor.

No lugar de se esforçarem para esconder suas opiniões pessoais sob uma aparência de neutralidade, os profissionais da imprensa deveriam concentrar todos os esforços em impedir que essas convicções substituam os fatos, já que as convicções pessoais de cada um sempre estarão lá. Isso significa reconhecer erros, confrontar as próprias certezas e apresentar ao público argumentos fundamentados, inclusive aqueles que contrariem suas crenças. A credibilidade do jornalismo não depende da inexistência de opiniões, mas da capacidade de submetê-las ao rigor da apuração.

Essa é uma responsabilidade individual que nenhum jornalista pode abandonar. Mas é também uma obrigação institucional que nenhuma empresa de comunicação deveria poder relativizar em nome da audiência, dos anunciantes ou de suas conveniências políticas.

Não se trata de defender um jornalismo que reproduza as convicções de seus profissionais, mas de construir um jornalismo capaz de confrontá-las quando os fatos exigirem. E, sobretudo, uma indústria que ofereça condições para que isso aconteça, inclusive quando o resultado de uma investigação contraria os interesses de quem paga as contas.

Porque a democracia precisa de cidadãos bem informados, não de consumidores permanentemente satisfeitos. Precisa de uma imprensa capaz de reconhecer suas falhas e compreender que suas decisões editoriais produzem consequências muito além das redações.

Durante décadas, a indústria da comunicação aprendeu a vender atenção. Agora precisa recuperar a responsabilidade sobre aquilo que faz com ela.

Uma sociedade pode conviver com jornalistas que têm opiniões. O que ela não pode dispensar é um jornalismo capaz de distinguir opiniões de fatos, divergências de falsidades e pluralismo de legitimação da violência.

Porque, quando até a defesa dos princípios mais elementares da convivência humana passa a ser tratada como uma posição partidária, a indústria da comunicação já não está apenas descrevendo a deterioração do debate público. Está participando dela.

Os profissionais da imprensa precisam recuperar e salvar a indústria.





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