A sala de aula virou conteúdo e o professor é o alvo


Por Valter Mattos da Costa*

 

Durante muito tempo, o professor enfrentou o velho ruído da sala de aula: conversa paralela, deboche, indisciplina, desinteresse. Nada exatamente novo na história da educação. A novidade contemporânea é outra. Agora existe um algoritmo observando tudo.

A sala de aula passou a coexistir com uma segunda dimensão invisível: a possibilidade permanente de gravação, edição, viralização e exposição pública instantânea. O professor já não enfrenta apenas uma turma. Enfrenta também a lógica das plataformas digitais.

Nos últimos anos, consolidou-se no ambiente virtual um fenômeno conhecido como cyberbaiting ou teacher-baiting: alunos provocam deliberadamente professores até o limite emocional, enquanto outros gravam escondido a reação final. O vídeo, quase sempre editado fora de contexto, circula depois como entretenimento.

O detalhe mais perverso está justamente na edição. O público raramente vê os quarenta minutos anteriores de desgaste psicológico, ironias, provocações sucessivas e sabotagens silenciosas. O vídeo começa exatamente no instante em que o docente explode, grita ou entra em colapso emocional.

Fora da sala, quem assiste enxerga apenas um “professor desequilibrado”. Dentro dela, muitas vezes existiu um processo sistemático de assédio coletivo cuidadosamente planejado.

Não se trata mais apenas de indisciplina escolar tradicional. Trata-se de uma mutação digital da violência simbólica.

Um estudo publicado na revista Research Papers in Education já apontava, ainda em 2015, um “rápido aumento” do cyberbullying de professores por estudantes, especialmente por meio de gravações publicadas em plataformas digitais. O trabalho observava que as novas tecnologias alteraram profundamente a forma como a autoridade docente pode ser desafiada publicamente.

O fenômeno ganhou nova dimensão com TikTok, Shorts e Reels. O algoritmo recompensa intensidade emocional, conflito, humilhação e choque. Quanto maior a explosão, maior o engajamento. Quanto maior o constrangimento, maior o alcance.

A lógica da plataforma transforma sofrimento em circulação.

Em 2026, sindicatos docentes britânicos passaram a denunciar também o crescimento de gravações clandestinas manipuladas por inteligência artificial. Professores vêm sendo filmados sem autorização e transformados em “deepfakes”, simulando gritos, ofensas e comportamentos inexistentes. A NASUWT, uma das principais entidades sindicais do Reino Unido, descreveu isso como uma “nova fronteira aterrorizante de assédio digital”.

O problema deixou de ser apenas moral. Tornou-se também profissional.

Um vídeo descontextualizado pode destruir reputações construídas durante décadas. Em muitos casos, antes mesmo da apuração dos fatos, já ocorre julgamento público nas redes sociais, pressão de famílias, desgaste institucional e adoecimento psíquico do docente.

A crueldade contemporânea possui uma característica específica: ela precisa de plateia.

O capitalismo digital não monetiza apenas produtos. Monetiza atenção. E poucas coisas geram mais atenção do que alguém emocionalmente destruído diante de uma câmera.

A tragédia vira conteúdo.

A humilhação vira performance.

O sofrimento vira dado.

Existe ainda um elemento geracional delicado. Entre parte dos jovens, consolidou-se uma cultura performática de “status digital”, na qual viralizar passou a funcionar como forma de reconhecimento simbólico. Nesse ambiente, “quebrar” emocionalmente um professor pode ser visto como conquista de prestígio entre pares.

A escola, então, passa a disputar espaço com outra pedagogia: a pedagogia do algoritmo.

Enquanto o professor tenta ensinar História, Matemática ou Literatura, a plataforma ensina outra coisa: como transformar qualquer situação humana em espetáculo de consumo rápido.

Isso ajuda a explicar por que tantos docentes relatam sensação constante de vigilância, medo de exposição e necessidade permanente de autocontrole emocional extremo dentro da sala de aula.

O professor contemporâneo trabalha diante da possibilidade permanente de se tornar meme.

E aqui existe um ponto MUITO perigoso: quando toda autoridade simbólica vira objeto automático de escárnio digital, o que se desgasta não é apenas a figura do professor. É a própria ideia de mediação pedagógica.

Sem autoridade mínima, não existe aprendizagem consistente. Existe apenas ruído.

Não por acaso, diversas entidades educacionais internacionais passaram a defender políticas mais rígidas sobre gravações clandestinas em sala de aula, uso de celulares e proteção digital dos profissionais da educação.

Isso não significa defender autoritarismo escolar nem negar abusos reais cometidos por alguns docentes. Professores também erram, e erros precisam ser apurados quando acontecem.

O problema é outro.

A transformação sistemática da humilhação pública em entretenimento corrói silenciosamente o próprio ambiente educacional.

Quando a sala de aula deixa de ser espaço de formação e passa a funcionar como cenário potencial de viralização, todos perdem: professores, estudantes, a escola pública e a própria sociedade.

O algoritmo não educa.

Ele apenas engaja.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.





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