Por Cleber Lourenço
A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz de Souza vai além dos encontros sociais comuns em Brasília. Ao longo dos últimos anos, a proximidade entre os dois se estendeu à vida familiar do parlamentar, a viagens em aeronaves privadas, a articulações no meio jurídico e a episódios envolvendo o escritório de advocacia de Flávio.
O vínculo ganhou novo peso após Willer se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga um esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS. Na apuração, o advogado é apontado como parte de uma estrutura financeira e patrimonial sob suspeita.
Até o momento, não há indícios públicos de que Flávio tenha participado das fraudes ou se beneficiado da estrutura investigada. Ainda assim, a presença de Willer em seu círculo mais próximo ajuda a dimensionar o alcance político do advogado e vai além da simples definição de “amigo”, usada desde o início do caso.
Registros mostram que Willer não era apenas um conhecido de eventos em Brasília. Ele viajou com o senador e sua família, frequentou ambientes privados, apareceu ligado à administração do escritório de Flávio e participou de articulações envolvendo tribunais superiores.
Em 2021, a proximidade entre os dois já era conhecida nos bastidores a ponto de Flávio, Willer e o advogado Frederick Wassef serem apelidados de “WWF”. O trio negava qualquer sociedade profissional. Wassef já atuava como advogado da família Bolsonaro, inclusive na defesa de Flávio no caso das rachadinhas.
Naquele período, Willer consolidava sua atuação como advogado com trânsito entre políticos, empresários e integrantes do Judiciário. Reportagens da época apontaram que ele havia conquistado acesso direto ao senador, reduzindo a intermediação de Wassef.
Durante a CPI da Covid, Flávio reconheceu a amizade com ambos, mas negou qualquer relação empresarial ou atuação conjunta em negócios.
A partir daí, os episódios conhecidos mostram que a relação ultrapassou o campo pessoal e alcançou espaços políticos, profissionais e institucionais.
Viagens em jatinhos e convivência familiar
Em maio de 2025, Flávio viajou com a esposa e Willer em um avião executivo para a Flórida, nos Estados Unidos. A aeronave pertencia a uma empresa ligada a empresários do setor farmacêutico que já haviam mantido relações profissionais com o advogado.
Em outra ocasião, o senador, a esposa e as filhas viajaram em um jatinho associado a Willer.
Flávio e o advogado afirmam que se tratavam de viagens pessoais, sem contrapartida financeira ou relação comercial. Ainda assim, o uso de aeronaves privadas por um parlamentar levanta questionamentos sobre custos, finalidade e eventuais interesses envolvidos.
O próprio senador já reconheceu que a relação com Willer incluía convivência entre famílias, indicando um nível de proximidade restrito a poucos aliados.
A indicação de Kassio Nunes Marques ao STF
A relação também aparece em um dos momentos mais relevantes do governo Bolsonaro: a escolha do ministro Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal.
Em 2020, Flávio sugeriu o nome ao pai, então presidente da República. Segundo relatos de aliados, Willer e Frederick Wassef também apoiaram a indicação.
Kassio, então desembargador do TRF-1, acabou nomeado ao STF após articulações políticas e aprovação do Senado.
O episódio evidencia a combinação entre acesso político e articulação jurídica: Flávio com trânsito direto no Executivo e Willer com conexões no meio judicial e empresarial.
O escritório de Flávio e a indicação de funcionária
A influência de Willer também chegou ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Segundo reportagem da Agência Pública, Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório Flavio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, afirmou ter sido indicada por Willer. O advogado nega a versão e diz não conhecer a profissional.
A divergência nunca foi esclarecida. O escritório, criado enquanto Flávio exercia mandato no Senado, passou a ser alvo de questionamentos sobre sua estrutura e clientes.
Embora não haja prova de que Willer tenha levado contratos à banca, o episódio reforça a proximidade entre os dois no ambiente profissional.
Mais tarde, o irmão de Letícia, Alexandre Caetano dos Reis, foi apontado como operador financeiro e sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”, investigado por fraudes e descontos indevidos em benefícios previdenciários
Atuação conjunta em processo no STJ
Flávio e Willer também atuaram no mesmo caso no Superior Tribunal de Justiça envolvendo a empresa Simas Industrial.
Willer já representava a companhia quando Flávio recebeu procuração para atuar no processo.
Não há evidência de sociedade entre os dois ou divisão de honorários, mas a coincidência de atuação reforça a proximidade no campo profissional.
O caso ocorreu enquanto Flávio já era senador e advogado, situação que frequentemente levanta discussões sobre possíveis conflitos de interesse, embora não haja prova de irregularidade.
A disputa por uma mansão em Angra
A relação pessoal também apareceu em uma disputa judicial envolvendo uma mansão em Angra dos Reis, avaliada em cerca de R$ 10 milhões.
O imóvel, com estrutura de luxo e área privativa à beira-mar, passou a ser disputado por Willer e uma empresa ligada ao jogador Richarlison.
Flávio foi citado como testemunha por ter visitado o local com o advogado antes do início do conflito.
Enquanto uma das versões aponta que ambos demonstraram interesse na compra, Willer nega participação do senador no negócio. Flávio afirma que sua relação com o caso é apenas testemunhal.
A visita conjunta, no entanto, reforça o grau de convivência entre os dois fora do ambiente político.
Festas e circulação entre Poderes
Willer também se tornou conhecido por promover eventos que reuniam políticos, empresários e integrantes do Judiciário.
Em uma dessas festas em Brasília, estiveram presentes Flávio Bolsonaro, o então presidente da Câmara Arthur Lira e outras autoridades.
O ambiente reforça a capacidade de articulação do advogado, que circula entre diferentes grupos políticos sem se vincular exclusivamente a uma corrente ideológica.
Antes de se aproximar de Flávio, Willer chegou a atuar em ações que poderiam atingir Jair Bolsonaro, mas posteriormente passou a integrar o círculo mais próximo do senador.
O alvo da Polícia Federal
A nova fase da Operação Sem Desconto colocou Willer no centro de uma investigação sobre fraudes em descontos aplicados a benefícios do INSS.
A Polícia Federal apura a existência de uma estrutura financeira envolvendo empresas, imóveis e aeronaves. O advogado é apontado como possível articulador dessa rede.
Willer nega qualquer participação no esquema. Não há condenação nem acusação formal contra Flávio no caso.
Ainda assim, a relação entre os dois impede que o episódio seja tratado como algo distante do senador.
Willer esteve presente em viagens familiares, participou de articulações políticas, circulou no ambiente do escritório de Flávio e manteve atuação próxima no meio jurídico.
Uma rede de convivência e influência
Os episódios conhecidos ao longo dos últimos anos mostram uma relação que atravessa diferentes esferas: pessoal, profissional e institucional.
Flávio e Willer compartilham convivência familiar, viagens, ambientes jurídicos e articulações políticas. Ao mesmo tempo, não há até agora prova pública de envolvimento do senador nas investigações que atingem o advogado.
O avanço das apurações deverá esclarecer o alcance da estrutura investigada pela Polícia Federal e o papel de cada um dos envolvidos.
Por ora, o que se documenta é uma relação de proximidade contínua, que se estende dos bastidores do poder às agendas privadas — e que agora passa a ser examinada sob a luz de uma investigação criminal de grande impacto político.





