Bactéria da Ypê é resistente a antibióticos; alta letalidade


Por Luis Eduardo de Sousa

(Folhapress) – A disseminação em larga escala da bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em lotes de produtos da Ypê, é um grave problema de saúde pública, afirmam especialistas ouvidos pela reportagem e um estudo sobre o microorganismo.

Presente em ambientes hospitalares, a bactéria é até cem vezes mais resistente a antibióticos do que bactérias comuns. Além disso, possui uma taxa global de mortalidade que pode variar de 32% a 58% em casos graves, como infecções na corrente sanguínea ou pneumonia associada à ventilação.

Na quinta-feira (7), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou o recolhimento de detergentes, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca, de todos os lotes com numeração final 1.

Na decisão, a agência cita risco sanitário e recomenda a suspensão imediata do uso de 23 produtos da Ypê, que devem ser descartados junto à marca. A Química Amparo, responsável pela produção, foi obrigada a interrompê-la.

Em ambiente doméstico, o contato com a Pseudomonas aeruginosa pode causar irritação na pele, alergias, coceiras e ardências nos olhos, por exemplo, afirma Daiane Ribeiro, biomédica que atuou por dez anos na Unilever.

Ela explica que há ainda riscos de problemas respiratórios e dermatite, uma inflamação na pele caracterizadas por coceira, vermelhidão e descamação.

Em pessoas saudáveis, o contato com a bactéria não costuma provocar infecções graves, por uma característica específica. A Pseudomonas aeruginosa é considerada uma bactéria oportunista: causa infecções quando encontra alguma brecha nas defesas naturais do corpo ou organismos fragilizados.

Por isso, a preocupação maior é com imunossuprimidos, como pessoas com HIV, câncer, transplantes ou internados em UTI (unidade de terapia intensiva), por exemplo, além de idosos. Em pessoas saudáveis, o sistema imunológico e barreiras como a pele e as mucosas costumam impedir danos relevantes.

O infectologista Leonardo Ruffing, do Hospital Vera Cruz, destaca que o dano depende da carga bacteriana. Se baixa, ele diz, dificilmente causará danos. Porém, há um risco associado ao uso de produtos contaminados.

“Se o produto for utilizado para higienizar um cateter, uma sonda ou um inalador, por exemplo, a bactéria vai ter um acesso facilitado, e pode causar uma infecção indireta”, explica Ruffing.

Há outra questão: produtos contaminados perdem a eficácia de limpeza, uma vez que a presença de bactérias na fórmula pode indicar falha na composição; ou, problemas de higiene do fabricante, afirma Daiane.

“Isso pode acontecer quando há falha no conservante, porque se espera que o produto, uma vez pronto, fique livre de alguns microrganismos durante todo seu prazo de validade. Se o conservante é adicionado em dose insuficiente, por exemplo, vão aparecer bactérias que não deveriam estar ali”, explica.

Ela destaca que a presença de algum grau de bactérias em produtos de limpeza é normal, mas não de organismos como Pseudomonas aeruginosa, que, na prática, deveriam ser combatidos pelos desinfetantes.

Segundo Daiane, higienização incorreta na fábrica e contaminação da água também podem favorecer a presença da bactéria. “Neste caso específico [da Ypê], o que preocupa é justamente a presença em produtos de desinfecção, o que justifica a medida da Anvisa.

Um estudo da Universidade Politécnica de Hong Kong, publicado no ano passado na revista Microorganisms, classifica a Pseudomonas aeruginosa como uma das principais causas de infecções hospitalares.

Os pesquisadores destacam a capacidade de formar biofilmes, colônias protegidas por uma matriz viscosa que atua como um escudo físico, permitindo que a bactéria sobreviva até mesmo em ambientes hostis, como frascos de produtos de limpeza.

A dificuldade de erradicação é agravada por mecanismos naturais da bactéria que a tornam até 100 vezes menos permeável a antibióticos do que microrganismos comuns, reforçando o perigo de sua disseminação em larga escala para populações vulneráveis.

Segundo o estudo, há registros de aumento de cepas multirresistentes da Pseudomonas aeruginosa, que deixam os médicos com pouquíssimas opções de tratamento eficazes.

Em nota, a Ypê diz que “possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor”.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) identifica a resistência antimicrobiana como uma das dez principais ameaças à saúde pública mundial.





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