Bonobos podem ter traço de linguagem semelhante à humana


Pesquisadores anunciaram ter identificado em bonobos um traço essencial da linguagem humana: a capacidade de combinar sons para criar novos significados. A descoberta foi publicada na última quinta-feira (3) na revista Science e reacende o debate sobre as origens da linguagem.

A pesquisa se baseia na análise de mais de 400 horas de gravações de vocalizações desses primatas na Reserva de Bonobos de Kokolopori, na República Democrática do Congo. O trabalho foi conduzido por cientistas do laboratório do psicólogo comparativo Simon Townsend, da Universidade de Zurique, em colaboração com o ecólogo comportamental Martin Surbeck, da Universidade Harvard.

grupo de bonobos
Pesquisa analisou mais de 400 horas de gravações de vocalizações de bonobos (Imagem: Sergey Uryadnikov / Shutterstock.com)

Chamados combinados podem transmitir significados distintos

  • O conceito por trás da investigação é conhecido como composicionalidade — a capacidade de formar expressões com novos sentidos a partir da junção de unidades com significados próprios.
  • Para os linguistas, essa é uma característica definidora da linguagem humana. “É a força por trás da criatividade e produtividade da linguagem”, afirmou Townsend ao New York Times.
  • Até recentemente, não havia evidências claras desse fenômeno em outras espécies.
  • No entanto, pesquisas anteriores com chimpanzés no Uganda já haviam identificado sequências específicas de vocalizações que pareciam ter significados diferentes dos sons emitidos isoladamente.
  • Um exemplo foi a combinação dos chamados “alarm-huu” (expressão de surpresa ou medo) e “waa-bark” (pedido de aproximação), que juntos pareciam indicar uma situação de perigo que exigia ajuda imediata.

Análise com bonobos sugere padrões semelhantes

A nova etapa da pesquisa concentrou-se nos bonobos, parentes próximos dos chimpanzés. A cientista Melissa Berthet, pós-doutoranda no grupo de Townsend, gravou 567 chamados isolados e 425 pares de vocalizações. Cada ocorrência foi registrada com base em uma lista de verificação com 336 itens, que incluía o contexto comportamental em que os sons foram emitidos.

De volta à Suíça, os pesquisadores usaram técnicas matemáticas semelhantes às aplicadas em sistemas de inteligência artificial, como o ChatGPT, para mapear visualmente as relações entre os sons e seus significados. A maior parte dos pares combinados aparecia próxima aos sons individuais, sugerindo que a combinação não trazia um novo significado.

No entanto, quatro pares se destacaram: suas posições no mapa indicavam que o significado conjunto era diferente do que qualquer um dos sons transmitia sozinho. Um exemplo envolvia a junção de um grito agudo, usado para chamar a atenção à distância, com um grito grave, associado a uma reação emocional intensa.

Representação do espaço semântico das vocalizações dos bonobos. (Imagem: Berthet et al. / Science)

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Descoberta divide a comunidade científica

A primatologista Federica Amici, da Universidade de Leipzig, na Alemanha, afirmou ao New York Times que o estudo contribui para recuar ainda mais no tempo a origem da linguagem. “As diferenças entre humanos e outros primatas, inclusive na comunicação, são muito menos definidas do que se supunha”, declarou.

Por outro lado, parte da comunidade científica recebeu os resultados com ceticismo. Para o neurobiologista Johan Bolhuis, da Universidade de Utrecht, na Holanda, as descobertas não trazem informações diretas sobre a evolução da linguagem humana. Ele argumenta que, apesar de interessantes, os padrões identificados nos bonobos ainda estão longe da complexidade das estruturas linguísticas humanas.




Fonte: Olhar Digital

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