Brasil denuncia ingerência de Trump e culpa Bolsonaro


Num comunicado emitido pelo Palácio do Planalto, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom de críticas contra Donald Trump e contra a família Bolsonaro. Na nota, as autoridades brasileiras indicam que reservam o direito de aplicar uma retaliação, caso as tarifas sejam impostas pelos EUA contra o Brasil.

Para o governo, a ação de Washington tem uma “motivação política” e alerta que se trata de uma ingerência em assuntos domésticos do país.

O ICL Notícias apurou entre diplomatas que o governo Lula ainda acredita que exista espaço para uma negociação com os EUA. Mas rejeita qualquer ação dos EUA contra o Pix ou por terras raras.

No Palácio do Planalto, foi definido que o Brasil não irá ceder nesses temas estratégicos como barganha para evitar o tarifaço.

Na avaliação interna do governo, as novas barreiras atingiriam pouco menos de 30% do fluxo comercial do Brasil para os EUA, num valor de pouco mais de US$ 10 bilhões.

Nesta terça-feira, a Casa Branca anunciou a conclusão de suas investigações sobre o Brasil, sugerindo que uma taxa de 25% seja imposta sobre os produtos nacionais. Uma lista de exceção também foi publicada, com carne, laranja e produtos desenvolvidos pela Embraer.

Como resposta oficial, o governo Lula manifestou “indignação” com a conclusão preliminar do processo nos EUA.

“Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington”, denunciou.

“Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, acusou.

“É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”, disse.

Para o governo, “não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares”.

Argumento econômico

De acordo com a nota, os dados oficiais dos EUA apontam que eles acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.

“Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%”, explicou.

Impacto

Na avaliação do governo, as tarifas são “politicamente motivadas” e o impacto tem sido a imposição de “danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial”.

“No primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%”, alertou.

O Brasil lembrou que, conforme acordado pelos presidentes Lula e Trump por ocasião da reunião em Washington no dia 7 de maio, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil. “O Governo brasileiro também dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo”, indicou.

Para, no texto, o governo alerta que não ficará apenas de braços cruzados.

“O Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional”, disse. Em outras palavras, o governo não descarta o uso de uma retaliação.

“O governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros”, disse.

O texto ainda manda um recado aos bolsonaristas. “É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”, completou.





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