A jovem e conturbada democracia brasileira vive o seu maior teste. Em jogo na eleição deste fim de semana não está apenas a escolha de um presidente. Mas quem somos, que projeto de nação teremos, quem queremos ser no mundo e, no limite, se a própria democracia resistirá às pressões imperialistas e neofascistas.
Frequentemente, tratamos o conceito de Estado-nação como algo inevitável da vida política. Esquecemos que ele é uma construção histórica recente. Se a soberania era inicialmente sagrada e a autoridade derivava de uma legitimidade divina, isso tudo ganhou novos contornos com revoluções e reformas embalada em profundas transformações sociais.
O que o mundo herdou não foi um destino. E sim um projeto ambicioso e inédito na história de tentar garantir que cidadãos tenham o direito a ter direitos.
No caso do Brasil, recebemos daqueles que nos antecederam um projeto de exploração colonial que teve um êxito incontestável. Com a mão de obra escravizada, exploração e morte, esse local do mundo gerou fortunas obscenas para alguns poucos. Esse era o projeto.
Coube à nossa geração a tarefa de começar a desmontar esse projeto e transformar o palco do colonialismo em promessas de sonhos. Desenhar uma país onde todos, finalmente, caibam.
Para isso, porém, precisamos de democracia e soberania. Elas não são o destino. São as tecnologias para uma revolução social permanente.
A primeira – a democracia – é a garantia de que temos a possibilidade de fazer parte da construção do destino de nossa sociedade. A segunda – a soberania – é a condição que um país precisa para escolher seu caminho sem a ingerência de uma potência estrangeira.
Elas andam de mãos dadas. Mas, em 2026, tanto a democracia como a soberania estão sob ameaça.
Para voltar ao poder depois de ter tentando um golpe de estado, a extrema direita brasileira agora fechou um pacto com forças políticas, ideológicas e empresariais no exterior.
Do ponto de vista de Donald Trump, a aliança com o bolsonarismo faz todo sentido. Em troca de dar seu apoio, ele aspira ser o ator mais influente no destino do maior país da América Latina. Uma bela barganha.
A Casa Branca cobrará pleno e exclusivo acesso às terras raras brasileiras, um elemento central para o delírio de uma potência lutando para reverter o que indica ser sua decadência econômica e moral.
Flávio, portanto, representa a retomada de um sistema produtivo colonial. Transformará os brasileiros em um povo exilado em seu próprio país. Seu projeto remete ao que Eduardo Galeano descreveu: “o banquete para poucos convidados e cujos principais pratos irão para mandíbulas estrangeiras”.
Mas ter um governo submisso no Brasil é também a garantia de que a maior economia da região e a potência regional estará neutralizada. Com um país sob controle externo, desmontar o que nos sobra de nossas instituições é apenas uma questão de tempo. A milícia no poder é, acima de tudo, o enfraquecimento do estado.
Para além dos recursos naturais, a ajuda para a candidatura de Flávio terá uma fatura ainda mais elevada: o abalo em nossa própria democracia. Afinal, de que valerá um voto ou nossas instituições se a soberania – e o nosso destino – tiverem sido transferidos para outra capital fora do país?
Se em 2022 o Brasil venceu uma tentativa de golpe, em 2026 é a própria existência como um projeto de nação que está em jogo. Afinal, quem irá parar os desmandos de uma superpotência aliada a uma elite miliciana no poder?
Neste domingo, a pergunta que o mundo se coloca é se uma democracia ocidental é ainda capaz de sobreviver aos ataques de uma potência com ambições imperialistas. Se uma promessa de estado de direito pode sucumbir às forças neofascistas fantasiadas de patriotas.
Como seu caminho bordado à fé, lágrimas e sangue, nossa democracia vive seu maior teste.
Um país inteiro está diante de uma encruzilhada. Com um eventual controle de nossos recursos entregue aos EUA e políticas públicas desenhadas fora do país, resta uma pergunta simples: o que significará a democracia brasileira, se não uma farsa.
A história olhará para esta eleição e irá julgar se o país assumiu para si o seu destino e a árdua construção de uma sociedade . Ou se, sonâmbulo, optou por aplaudir o eclipse sobre os sonhos de justiça e dignidade.





