Carbono Oculto 86: Deputado citado em áudios sobre emendas é sócio de Ciro Nogueira   


  Por  Alice Maciel 

Além do senador Ciro Nogueira (PP-PI), o deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) aparece em mensagens encontradas nos celulares de empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86. Os diálogos sugerem negociações envolvendo emendas parlamentares.

Arcoverde é sócio do senador na empresa JJE Agenciamento de Seguros e Serviços. Com sede em Teresina (PI), a empresa atua nos setores de reparo, manutenção e comercialização de peças automotivas, de acordo com registros da Receita Federal.

A Operação Carbono Oculto 86 é um desdobramento da investigação homônima que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de postos de combustíveis. No Piauí, a operação recebeu o número 86, em referência ao DDD local.

Ciro Nogueira e Arcoverde não são investigados, mas a Polícia Civil do Estado solicitou o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), após a investigação identificar menções aos parlamentares com foro privilegiado nas mensagens apreendidas nos celulares dos empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa.

Em abril, o ICL Notícias publicou os áudios obtidos pela Polícia Civil que indicam uma suposta proximidade entre Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Ciro Nogueira. Em uma das gravações, Danillo afirma que Beto Louco – apontado como um dos líderes da máfia dos combustíveis – seria “muito amigo” do senador piauiense.

Já o nome de Júlio Arcoverde surge em áudios em que empresários discutem recursos destinados ao município de Caxias, no Maranhão, com referência a emendas parlamentares.  A existência dessas conversas foi revelada pela Revista Piauí.

Em uma das mensagens, Danillo afirma: “O problema foi porque o prefeito cobrou os 130. Mesmo a gente já tendo pago para o Júlio, ele cobrou os 130 de novo. Aí a gente teve que dar para aquele ‘fela’ da puta, daquele prefeito. Aí o Júlio tinha que devolver os 130. Aí ele não devolveu”.

Na sequência, o empresário continua: “Quando a gente for acertar com ele essa emenda de Caxias, nós vamos já dizer: ‘Opa, Júlio, eu já te dei os 130’. Na hora que o dinheiro de Caxias entrar, é a hora que nós vamos puxar os 130 de volta.”


Em outro trecho da conversa, Danillo indica o rompimento de um suposto acordo envolvendo o deputado federal: “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de R$ 1 trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero”.

Caxias é administrada pelo prefeito José Gentil Rosa Neto. Ele se filiou ao PP em abril de 2024, durante evento que contou com a presença de lideranças da legenda, entre elas Ciro Nogueira, presidente nacional do partido.

Ciro Nogueira participou da festa de filiação do prefeito de Caxias Gentil Neto, em 2024

É em Caxias também onde está registrada a sede de uma das empresas do senador, a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas (CN Motos), citada na operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e corrupção ligadas ao Banco Master. De acordo com investigação da PF, o senador recebia uma mesada do ex-dono do banco, Daniel Vorcaro.

O ICL Notícias entrou em contato com Ciro Nogueira, com o deputado Júlio Arcoverde, com a prefeitura de Caxias e com os empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa, mas não obteve retorno. Em nota enviada à reportagem em abril, após o caso vir à tona, Arcoverde informou desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado”. Ele acrescentou que não é investigado no âmbito da operação, “nem em qualquer outro inquérito”.

Contrato milionário na saúde

Os investigadores do Piauí suspeitam que o suposto esquema envolvendo emendas parlamentares em Caxias, citado no áudio de Danillo, possa ter relação com a Distribuidora Mercury Medicamentos. A empresa é controlada pela Pima Energia Participações Ltda., que é investigada no âmbito do esquema ligado à máfia dos combustíveis.

A Mercury Medicamentos firmou, entre 2024 e 2025, três contratos com a prefeitura de Caxias para o fornecimento de medicamentos e material odontológico, que somam R$ 22,9 milhões. No contrato mais vultoso, assinado em maio do ano passado – com vigência de um ano e valor de R$ 22,5 milhões – o município aderiu a uma ata de registro de preços do Consórcio de Municípios Médio Paranaíba do Piauí (Comepa), por meio do mecanismo conhecido como “carona”, dispensando a realização de uma nova licitação.

Em dezembro, no entanto, o Tribunal de Contas do Piauí identificou irregularidades no certame conduzido pelo Comepa e suspendeu os contratos envolvendo os municípios piauienses Picos e São Gonçalo do Piauí com a Mercury Medicamentos.

O contrato de Caxias com a distribuidora de medicamentos foi pago com recursos do Fundo Municipal de Saúde, que recebeu R$ 43,3 milhões em emendas parlamentares entre 2025 e maio de 2026. Desse total, mais de 60% (R$ 27,9 milhões) foram destinados pela deputada federal Amanda Gentil, prima do prefeito José Gentil Rosa Neto. Ela presidiu o PP no Maranhão de outubro de 2025 a abril de 2026.

Mesma empresa aparece no esquema dos combustíveis

A Pima Energia, que controla a Distribuidora Mercury Medicamentos, foi a empresa usada na compra da rede de postos HD, de Haran Sampaio e Danillo de Sousa.  A transação é tratada pelos investigadores como um dos indícios da expansão do esquema da máfia de combustíveis de São Paulo para o Piauí.

Conforme relatório da Polícia Civil, a Pima Energia foi aberta na capital paulista apenas seis dias antes da compra da rede de postos HD, o que levantou suspeitas sobre a finalidade da empresa.

Os investigadores também afirmam que, apesar da mudança societária, houve apenas uma “substituição de bandeira (de HD para Pima e Diamante) sem alteração operacional real”, o que reforçaria a hipótese de uma venda de fachada.

Após a conclusão da negociação, Moisés Eduardo Soares Pereira passou a figurar como único sócio da Pima Energia. Segundo a Polícia Civil, ele é ex-funcionário de Haran Sampaio e Danillo de Sousa e é suspeito de atuar como laranja dos empresários.

Em março, Haran, Danillo e o ex-assessor de Ciro Nogueira, Victor Linhares, foram denunciados pelo Ministério Público do Piauí (MP-PI) pelos crimes de adulteração de combustíveis, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e associação com Beto Louco e seu parceiro, Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo.  .

O inquérito havia sido trancado em abril, por determinação judicial, mas após recurso do MPPI, o Tribunal de Justiça do Piauí determinou a retomada da investigação.





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