Comércio global resiste a tarifaço de Trump


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teve um retorno barulhento à Casa Branca, em 2025. No começo, reacendeu temores de uma ruptura no comércio internacional ao impor tarifas a uma série de países, incluindo o Brasil. Mas a resistência encontrada do outro lado da mesa fez o “laranjão” ficar mansinho. Ele dobrava a aposta, mas quase ninguém se curvava.

O anúncio de tarifas generalizadas — batizadas pelo próprio presidente como as do “dia da libertação” — provocou forte turbulência nos mercados financeiros e forçou empresas globais a reverem cadeias de suprimentos.

Mas, segundo reportagem do jornal Financial Times, o impacto foi menor e mais curto do que o inicialmente esperado. Após semanas de instabilidade, Trump recuou parcialmente, negociou acordos temporários com a União Europeia, Japão e Coreia do Sul, e buscou conter uma escalada direta com a China. Ainda assim, os Estados Unidos encerram o ano com uma taxa tarifária efetiva acima de 10%, a mais alta desde a Segunda Guerra Mundial.

Nos EUA, os efeitos foram sentidos no bolso do consumidor, com pressão inflacionária e críticas do Federal Reserve, o banco central estadunidense. No plano internacional, porém, a tentativa de reequilibrar o comércio global em favor da indústria norte-americana não se concretizou.

China desafia o protecionismo

Apesar de tarifas efetivas que chegaram a 40% sobre produtos chineses, o superávit comercial da China ultrapassou US$ 1 trilhão em 2025, impulsionado pelo redirecionamento de exportações para a Ásia, Europa e Oriente Médio, além de descontos de preços e expansão em bens industriais e tecnológicos.

Especialistas apontam que estratégias como o “China mais um”, com produção distribuída pelo sudeste asiático, reduziram o impacto das barreiras tarifárias. Países como Vietnã e Indonésia ampliaram suas vendas aos EUA, mesmo sob taxação elevada, evidenciando os limites do protecionismo em cadeias globais integradas.

Brasil no contrafluxo: exportações em alta

No caso brasileiro, os bolsonaristas bem que tentaram agir contra o país — e até conseguiram no começo. Mas a diplomacia brasileira foi cozinhando a estratégia a fogo lento. Em setembro, Trump e o presidente Lula (PT) se encontraram na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Washington, quando pintou a tal da química entre ambos. A partir daí, teve início a negociação em torno do tarifaço contra produtos importados do Brasil.

Por orientação de Lula e Trump, a negociação entre os dois países começou a ser encaminhada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. O principal argumento do Brasil é que a balança comercial entre os dois países é favorável aos EUA, ou seja, não há razão para achar que produtos brasileiros ameaçam a economia norte-americana.

Por ora, os dados indicam um desempenho robusto das exportações brasileiras apesar do ambiente adverso. O país deve fechar 2025 com o melhor resultado das exportações em dez anos. De janeiro até a terceira semana de dezembro, as vendas externas somaram mais de US$ 339 bilhões, alta de 4% na comparação anual — a melhor marca para o período em uma década.

Somente até a terceira semana de dezembro, as exportações registram crescimento de 21,6%, atingindo US$ 21,61 bilhões, segundo dados preliminares do Ministério do Desenvolvimento, indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

A balança comercial acumulou superávit de quase US$ 58 bilhões, com projeções de ultrapassar US$ 62 bilhões até o fim do ano, segundo o Banco Central. Mesmo com o tarifaço americano, 11 dos 30 setores que exportam para os Estados Unidos ampliaram o volume de negócios.

Diversificação de mercados atenua impacto

Estudo da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostra que 19 setores reduziram exportações aos EUA, mas ainda assim movimentaram mais de US$ 21 bilhões em 2025.

A perda foi compensada pela diversificação geográfica. O Brasil ampliou vendas para mercados que antes tinham participação marginal, como Filipinas, Indonésia e Egito, exportando tanto commodities quanto produtos semi-industrializados.

Além disso, setores de maior valor agregado — como aeronaves, motores, geradores elétricos, partes para aviação, além de carne bovina, café, suco de laranja e óleos combustíveis — registraram crescimento nas vendas aos EUA, mesmo sob tarifas mais elevadas.

Recuo parcial dos EUA e perspectiva positiva

Em novembro, os Estados Unidos suspenderam a tarifa adicional de 40% sobre mais de 200 produtos, especialmente do agronegócio, incluindo café, carne bovina, cacau, frutas e açaí. A decisão, atribuída oficialmente a fatores internos americanos, tende a melhorar ainda mais o desempenho brasileiro no fim do ano.

Para analistas, o episódio reforça uma mudança estrutural: o Brasil mostrou capacidade de adaptação ao ampliar mercados de destino para seus produtos.

A experiência de 2025 sugere que, apesar do ruído político e das tentativas de retração comercial, a economia global — e o Brasil em particular — demonstrou resiliência.





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