Certa tradição da cultura ocidental vê o corpo como materialidade não vinculada à mente ou inferior a esta. Pensando a partir de outras tradições, não é pertinente conceber cisão entre o corpo e a mente; o que há é interdependência.
Exemplifico. Para os iorubás, somos constituídos de dois tipos de poder: o agbara (poder do corpo) e o axé (poder espiritual). A capacidade de realização e a vivacidade se obtém a partir da integração entre os dois.
Para os bacongos, fortalecer o moyoo (capacidade de realização a partir da incorporação de forças vitais) é alimentar, de forma integrada, corpo e mente como unidades do ser.
Para encantarias das matas e águas brasileiras, o corpo nos coloca na condição disponível para que o ser se encante, transite, transe, naturalize músculos, cartilagens, artérias e, ao mesmo tempo, humanize folhas, raízes, águas, pedras, árvores.
O encantado não é cindido: ele é corpo, mente, dança, repouso, silêncio, gente e praia. A concepção de corporeidade encantada não se limita ao corpo pensado apenas como instrumento de motricidade: moram no corpo dimensões históricas, sociais, afetivas, espirituais.
Para os agentes do desencanto, corpos que terreirizam-se, driblam, gingam, comemoram gols, dançam, transitam, amam, requebram, passeiam, festejam, arvoram-se, ameaçam, desconfortam, devem ser eliminados pela domesticação castradora ou pela aniquilação física.
Para as ciências encantadas, corporeidade é a maneira pela qual o corpo fala, brinca, pulsa, domina a bola, ocupa o espaço vazio do campo com o drible, reconhece o som, a ginga e o samba. O tambor e a bola também reconhecem o corpo, e ambos interagem como instrumentos relacionais com o mundo, amalgamando-se ritmicamente em corpos de mandinga, transitando no transe, para reexistir como se o couro e o corpo fossem um só.




