Dark Horse: 5 perguntas que a PF precisa encontrar respostas


Há três meses, quando meus então colegas do Intercept Brasil e eu começamos a publicar a série Vaza Flávio, uma parte importante da história apareceu de maneira relativamente clara: Flávio Bolsonaro havia participado diretamente da negociação de US$ 24 milhões com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro.

Documentos mostravam que pelo menos US$ 10,6 milhões haviam sido enviados ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, entre fevereiro e maio de 2025. De lá para cá, porém, a impressão que tenho é quase oposta à ideia de que o caso está esclarecido. Quanto mais informações aparecem, mais evidente fica o tamanho das lacunas.

A abertura do inquérito no Supremo, autorizada em 23 de julho pelo ministro André Mendonça após parecer da Procuradoria-Geral da República, colocou formalmente Flávio, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Daniel Vorcaro e outros personagens sob investigação. A apuração alcança suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas à negociação e ao uso dos recursos.

Na minha visão, há, pelo menos, cinco perguntas que ainda precisam ser respondidas.

1. Cadê as notas fiscais?

Esta é a pergunta mais importante de todas. Há milhões de dólares identificados chegando aos Estados Unidos. Há um fundo, o Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e por Altieris Santana. Há documentos que colocavam Eduardo como produtor-executivo do Dark Horse, com poder de gestão e decisão sobre a produção, inclusive em matéria financeira. Há também mensagens nas quais Eduardo orientava interlocutores sobre a melhor forma de colocar os recursos nos Estados Unidos. O que ainda não temos é uma prestação de contas pública que permita acompanhar o caminho completo do dinheiro.

A GoUp, produtora do filme, afirmou ter entregue documentação financeira à Polícia Civil de São Paulo e diz possuir laudo atestando a origem privada e rastreável dos recursos. Esses documentos, porém, não foram tornados públicos.

É justamente aí que entram as notas fiscais, contratos, extratos e comprovantes de pagamento. Quem recebeu os milhões administrados pelo Havengate? Quanto efetivamente chegou à produção do filme? Quais serviços foram contratados? Quanto permaneceu no fundo?

E há uma questão ainda mais sensível: a Polícia Federal apura se parte desses recursos bancou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ou outras ações de aliados de Jair Bolsonaro naquele país. Eduardo nega ter recebido o dinheiro e afirma que não exerceu função de gestão no fundo. Sem as contas abertas, essa controvérsia permanecerá sem resposta.

2. Houve alguma contrapartida para o Banco Master?

Esta é a pergunta que pode mudar de patamar todo o caso. Até aqui, não há prova pública de que Flávio Bolsonaro tenha oferecido qualquer contrapartida a Daniel Vorcaro ou ao Banco Master em troca do investimento no filme. Isso precisa ser dito com todas as letras. Mas a hipótese é suficientemente relevante para já estar no radar das investigações.

O ICL Notícias mostrou que, em 2025, Flávio atuou no Senado em favor de uma mudança na legislação ambiental que reduziu a responsabilidade de instituições financeiras por danos provocados por empreendimentos financiados. Naquele período, o Master tinha operações em setores como mineração, minerais críticos e créditos de carbono, potencialmente beneficiados pela regra. Flávio votou a favor do dispositivo, apresentou emenda sobre o tema depois do veto presidencial e posteriormente votou pela derrubada desse veto. Não há evidência pública de que tenha feito isso a pedido de Vorcaro.

Após a reportagem, deputados pediram à Polícia Federal que cruzasse essa atuação parlamentar com os demais elementos da investigação, inclusive dados bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos. Essa é exatamente a apuração que precisa ser feita.

Mais do que isso, é necessário reconstruir todas as ações de Flávio e de seus aliados em temas de interesse do Master durante o período em que Vorcaro financiava o projeto: emendas, projetos, votos, reuniões, indicações, articulações políticas e contatos com órgãos públicos.

3. Qual foi o papel de Jair Bolsonaro?

Até agora, o personagem menos explorado dessa história talvez seja justamente aquele que aparece no centro do filme: Jair Bolsonaro. Nós revelamos no Intercept que, em março de 2025, houve uma articulação para levar o ex-presidente à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília. A ideia era que Jair e o banqueiro assistissem juntos a um documentário.

Segundo as mensagens, o encontro integrava uma estratégia de aproximação relacionada à busca do apoio de Vorcaro para o Dark Horse. O banqueiro concordou em recebê-lo, mas os registros não permitiram confirmar que a visita tenha de fato ocorrido. A defesa de Thiago Miranda afirmou posteriormente que o encontro não aconteceu. Mas essa resposta não encerra o assunto.

Se Jair Bolsonaro não foi pessoalmente à casa de Vorcaro, houve algum outro contato? Telefonema? Videoconferência? Interlocução por terceiros? Ele sabia dos valores envolvidos? Participou de alguma conversa sobre a captação? Autorizou que seus filhos e Mario Frias buscassem esse dinheiro em seu nome?

São perguntas relevantes porque não estamos falando de um investimento lateral em um empreendimento qualquer. Estamos falando de US$ 24 milhões negociados para financiar uma produção cinematográfica dedicada a construir a narrativa pública sobre a vida de Jair Bolsonaro.

É difícil considerar completamente esclarecida essa negociação sem conhecer o papel desempenhado pelo próprio biografado.

4. O que Flávio e Vorcaro falaram ao telefone?

Nesta terça-feira (18), revelei na newsletter Noites Húngaras um detalhe que havia permanecido praticamente escondido no enorme volume de mensagens do caso: Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro falaram por telefone ao menos cinco vezes somente em setembro de 2025. As chamadas identificadas somaram 6 minutos e 20 segundos.

Uma delas chama especialmente atenção. Em 8 de setembro, às 22h12, Flávio ligou para Vorcaro e os dois conversaram durante 2 minutos e 38 segundos. A chamada começou instantes depois de o senador enviar o famoso áudio cobrando uma solução para os pagamentos do Dark Horse. O conteúdo dessas conversas continua desconhecido.

Há ainda outro problema: os cinco telefonemas podem não ser todos. Em 16 de setembro, mensagens mostram Flávio dizendo a Vorcaro que havia “retornado” um contato. Nem a tentativa inicial nem esse aparente retorno aparecem no histórico de chamadas do WhatsApp. A explicação mais plausível é que tenham ocorrido pela rede telefônica convencional, o que significa que há contatos entre os dois que o vazamento simplesmente não permite enxergar.

A investigação precisa descobrir quantas ligações realmente ocorreram — e, principalmente, o que foi tratado nelas.

5. De onde veio o US$ 1,7 milhão que faltava?

Os documentos que revelamos no Intercept permitiam identificar seis transferências, realizadas entre fevereiro e maio de 2025, que somavam US$ 10,6 milhões. Mas um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, citado posteriormente pela PGR e revelado pela revista Piauí, identificou uma movimentação de US$ 12.333.335 entre a Entre Investimentos e Participações e o Havengate Development Fund. É uma diferença de cerca de US$ 1,7 milhão.

E aqui existe uma lacuna que considero especialmente importante: ainda não sabemos se esse dinheiro adicional corresponde a uma ou mais novas parcelas, quando elas foram pagas ou sequer se os dois números representam exatamente o mesmo conjunto de operações. O parecer da PGR não informa a data das movimentações nem quantas transferências formaram os US$ 12,3 milhões.

Isso importa porque, em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro ainda cobrava Vorcaro pela liberação de recursos. Se houve novos desembolsos depois daqueles US$ 10,6 milhões já conhecidos, é fundamental descobrir quando ocorreram, quem os autorizou e em que circunstâncias.


Esse, para mim, é o ponto central dos próximos capítulos de Dark Horse. O escândalo não é apenas saber que um banqueiro se comprometeu a colocar US$ 24 milhões num filme sobre Jair Bolsonaro e que milhões efetivamente atravessaram a fronteira. O que falta descobrir é por que esse dinheiro foi dado, onde ele terminou e o que aconteceu depois. Enquanto isso não tiver resposta, o caso estará muito longe de encerrado.





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