Despertar 2026: jornalistas do ICL falam com o público


Por Carolina Martins

Na tarde deste sábado (19), o palco do Despertar 2026, no Vibra São Paulo, virou espaço de conversa sobre como a informação chega às pessoas. Primeiro, a influenciadora Carolline Sardá, criadora de conteúdo que produz vídeos e debates nas redes contra a desinformação, com foco em política, feminismo e direitos das mulheres, falou sobre o papel dos criadores na disputa por informação. Depois, os jornalistas do ICL, Rodrigo Vianna e Laura Kotscho, apresentadores do ICL Urgente, e Luís Costa Pinto, que participa do programa Desperta ao lado de Fábio Pannunzio, abriram o microfone ao público. As pessoas contaram o que o ICL representa em suas vidas e como o canal se diferencia da chamada “mídia tradicional”.

“A desinformação literalmente mata”

Carolline Sardá começou contando que, nos bastidores, havia encontrado Maria da Penha, farmacêutica e ativista que dá nome à lei contra a violência doméstica e é alvo de uma das desinformações que ela mais combateu nas redes. Lembrou que começou a produzir conteúdo em 2020, durante a pandemia, quando circulavam mentiras sobre vacinas, feminismo e democracia. “A desinformação literalmente mata. E nós sabemos disso porque muitos de nós perdemos familiares na época da pandemia e vimos como ela afetou nossos relacionamentos“, afirmou.

Para a influenciadora, quem produz conteúdo à esquerda disputa espaço em condições desiguais. “Nós não temos o capital, não temos o algoritmo, mas temos o povo, e o povo está do nosso lado”, disse. Segundo ela, comunicadores e criadores também “disputam a consciência” de pessoas que, insatisfeitas com o sistema, podem ser atraídas por discursos extremistas.

A influenciadora Carolline Sardá no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
A influenciadora Carolline Sardá no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Ela deu como exemplo o documentário da produtora de conteúdo Brasil Paralelo contra Maria da Penha. Contou que estudou a estratégia de divulgação e viu que a produtora comprou palavras-chave no Google, de modo que quem buscava pelo nome da ativista encontrava desinformação. Para aparecer nas pesquisas, fez uma live de 11 horas. “Eu não tenho capital, mas eu tenho a informação“, disse.

Em março de 2026, a Justiça do Ceará aceitou a denúncia do Ministério Público contra quatro pessoas suspeitas de participar de uma campanha de ódio contra a ativista na produção do documentário, entre elas dois profissionais ligados à produtora.

Carolline também pediu que o público compartilhe e comente conteúdos de informação, para que eles rompam o alcance limitado das plataformas. Depois, chamou ao palco um grupo de criadores de conteúdo, muitos deles conhecidos por vídeos que circulam nos grupos de família e de amigos. “Se engana quem acha que redes e ruas estão separadas. Elas se conectam”, resumiu.

Influenciadores convidados no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
Influenciadores convidados no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Diversidade também no debate

Rodrigo Vianna abriu a conversa dos jornalistas lembrando que a diversidade de gênero, de orientação sexual, étnica, cultural e geográfica está no jornalismo do ICL. Mas defendeu que a diversidade que mais falta na imprensa tradicional é a de ideias. “Isso quase não se vê na imprensa comercial”, afirmou. Contou que, na época da reforma trabalhista, trabalhava numa grande emissora de TV em que, segundo ele, era proibido entrevistar quem defendesse direitos trabalhistas.

Para ele, o ICL abre espaço para o debate econômico, político e geopolítico. Disse que o canal foi talvez o único veículo a enviar um repórter à Palestina para cobrir o massacre cometido por Israel, e apontou a jornalista Heloisa Villela, do ICL, que estava perto do palco. Também destacou a diversidade de gerações na redação, que divide com Laura Kotscho, sua parceira no ICL Urgente.

Gerações, bets e novas iniciativas

Laura contou que os jornalistas mais experientes também escutam e aprendem com ela e com os colegas da geração Z. Lembrou que o ICL, segundo ela, foi o primeiro veículo a denunciar as bets, em 2024, com o documentário “Bets: o jogo sujo que ninguém comenta”, e reforçou que a plataforma não tem patrocínio nem monetização. “Vocês podem contar com a gente”, disse.

A jornalista Laura Kotscho, coapresentadora do ICL Urgente, na plateia durante o Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
A jornalista Laura Kotscho, coapresentadora do ICL Urgente, na plateia durante o Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Laura também convidou o público para o Clube do Livro, que será lançado no dia 27, às 20h, e falou da nova sede do instituto, que terá um centro cultural e uma placa com o nome de cada um dos 5 mil membros do ICL Eterno.

Luís Costa Pinto, no camarote, contou que voltou às redações depois de quase 19 anos afastado do jornalismo e que, no ICL, se sente à vontade porque “a única censura é a da notícia“. Lembrou também que, em 1985, quando entrou na universidade, levava consigo o livro “O que é reportagem”, do jornalista Ricardo Kotscho, avô de Laura.

Microfone aberto

Os jornalistas foram até o público, e os depoimentos deram o tom da conversa. Neide, de Cuiabá, sócia desde o início, disse que o que mais a marca no ICL é a diversidade de opiniões e as batalhas que o canal enfrenta, como a cobertura na Palestina e a campanha contra as bets. Letícia Clarindo, psicóloga de Florianópolis, disse que veio ao evento para levar conhecimento crítico ao Sul do país: “Nada está perdido no sul do Brasil. Não podemos desistir.”

O jornalista Rodrigo Vianna conversa com a plateia do Despertar ICL. Foto: Oficina de Imagens / ICL
O jornalista Rodrigo Vianna conversa com a plateia do Despertar ICL. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Vânia, de 55 anos, carioca criada em uma família de militares, contou o momento em que se descobriu de esquerda. Aos 12 anos, dentro de um carro com motorista, em Brasília, viu meninas iguais a ela morando em casas simples e pensou: “Qual a diferença de estar aqui e elas lá? Eu dei sorte.” Valmir Garcia, analista de sistemas de Vitória, contou que chorou ao fim do primeiro Despertar por ter, disse, encontrado a sua “tribo”.

“Se não fosse o ICL, eu não estaria aqui hoje”

O momento mais marcante foi o depoimento de Mauro Matosinhos, ex-piloto da Táxi Aéreo Piracicaba que deu uma entrevista exclusiva ao ICL Notícias. Luís Costa Pinto o apresentou como o personagem que procurou o ICL para dar uma entrevista que se tornou um dos fatos do ano, ligada ao escândalo do Banco Master e à Operação Carbono Oculto, que mirou empresas e fundos de investimento sediados na Avenida Faria Lima, em São Paulo.

O jornalista Luís Costa Pinto e o piloto Mauro Matosinhos no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
O jornalista Luís Costa Pinto e o piloto Mauro Matosinhos no Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Mauro contou que acompanhava o ICL “todas as manhãs” e que, ao ver a qualidade do debate, ganhou confiança no trabalho da equipe. Por isso, ao reunir as informações que tinha, procurou o jornalismo investigativo do canal, acreditando que seria “um dos únicos ou poucos” dispostos a comprar a briga. “Se não fosse o ICL, eu não estaria aqui hoje”, afirmou.

Segundo ele, a grande mídia também ouviu suas denúncias, mas não se interessou porque elas não envolviam as pessoas que importavam a esses veículos. Para Mauro, a isenção e a seriedade com que o ICL tratou o caso foram fundamentais para que o trabalho da Polícia Federal avançasse. Ele agradeceu ainda à comunidade do ICL, que o “manteve forte e mentalmente saudável” no último ano. “Obrigado a todos vocês”, concluiu.

Rodrigo encerrou a conversa dizendo que a dinâmica havia parecido “um jornal feito ao vivo”, com as coisas acontecendo na hora, e agradeceu a todos que participaram.

Sobre o Despertar 2026

O Despertar 2026 continua neste sábado (19) e no domingo (20), no Vibra São Paulo. Em sua terceira edição, o evento reúne professores, pesquisadores, jornalistas, artistas e ativistas para debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.





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