Por Schirlei Alves
Mesmo sob uma chuva fina e persistente, que se intensificou em alguns momentos, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lotaram a Praça Tancredo Neves, no Centro de Florianópolis, na manhã deste sábado (19). O ato ocorreu em frente à Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e reuniu Lula, representantes da esquerda que disputam as eleições no estado e integrantes da cena cultural da capital.
A mobilização sob a chuva deu ao ato um significado particular em um estado marcado pela forte presença eleitoral da direita e da extrema direita.
Entre os políticos presentes estavam o candidato ao governo de Santa Catarina Gelson Merísio (PSB), a candidata a vice-governadora Ângela Albino (PDT), os candidatos ao Senado Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL). A primeira-dama Janja Lula da Silva também acompanhou o presidente e fez um discurso durante o evento.
A cerimônia foi conduzida pelo ator catarinense e doutorando em Artes Cênicas Leandro Batz e pela assessora parlamentar Leidiane Sampaio. A cantora de samba Juliana D. Passos interpretou o Hino Nacional, acompanhada pelo cavaquinista Jean Leiria. Wesley Malta e Izadora Moretti Tils atuaram como intérpretes de Libras.
O Coletivo Gruve-se também participou do ato, que reuniu artistas e representantes da cena cultural de Florianópolis.
Ao longo do discurso, Lula abordou temas como apostas esportivas, combate ao feminicídio, educação, segurança pública e desenvolvimento tecnológico.
Lula critica bets e defende fim das apostas
Um dos primeiros temas abordados por Lula foi o impacto das apostas esportivas. O presidente relatou ter conhecido pessoas endividadas por causa das bets e afirmou estar determinado a acabar com as apostas.
Lula disse que pretende discutir o tema com integrantes de seu governo e do Banco Central. Também criticou o argumento de que o futebol brasileiro depende financeiramente das bets.
O presidente citou clubes brasileiros que conquistaram títulos internacionais antes da existência das apostas esportivas e afirmou que o futebol não pode depender do dinheiro de pessoas pobres que apostam.
“O que o futebol não pode é querer sobreviver às custas do povo pobre”, afirmou.
Lula também criticou a publicidade das plataformas e os influenciadores que promovem apostas.
“Não é possível a gente permitir que a sociedade brasileira se autodestrua”, disse.
Combate ao feminicídio
Lula também dedicou parte do discurso ao combate à violência contra as mulheres. Ele relatou casos de agressões e lembrou que o governo criou um pacto contra o feminicídio. Defendeu medidas para ampliar a proteção das mulheres e afirmou que as penas para agressores serão aumentadas.
O presidente também citou o uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar homens que tenham medidas de afastamento.
“Agora tornozeleira eletrônica não pede que vá para mulher. Se ele chegar perto, a mulher vai saber que ele está perto e ele vai ser preso. E a gente vai aumentar a pena”, disse.
Lula afirmou que o combate à violência contra as mulheres deve ser uma responsabilidade também dos homens.
“A luta contra a violência das nossas companheiras não é delas, é nossa”, afirmou.
Ao longo do discurso, ele defendeu maior participação dos homens nas tarefas domésticas e criticou a ideia de que mulheres sejam propriedade dos companheiros.
“É importante que a gente seja reeducado, para a gente aprender que a nossa mulher não é nossa propriedade”, disse.
Lula também pediu que sindicalistas incluam o combate ao feminicídio em discursos e campanhas salariais.
“Quando o homem da porta de fábrica, da porta do comércio, da porta do banco, fizer discurso para campanha salarial, fale do feminicídio, defenda as mulheres, seja parceiro delas”, afirmou.
Educação
A educação foi outro eixo do discurso. Lula defendeu o programa Pé-de-Meia e questionou críticas aos recursos destinados à iniciativa. Ele comparou o custo do programa com o investimento necessário para a formação em um curso de engenharia espacial.
“Aí disseram: ‘O Lula está gastando dinheiro’. Presta atenção, numa universidade federal em que tem um curso de engenharia espacial […] custa R$ 20 mil por ano. Sabe quanto custa um preso em qualquer estado? R$ 35 por ano”, afirmou.
Na sequência, Lula defendeu que os investimentos em educação sejam priorizados em relação ao encarceramento de jovens.
“Em vez de construir cadeia, eu construo escola. Ao invés de ficar discutindo aumentar a pena para punir os menores, eu quero aumentar a quantidade de anos de escolaridade para os menores”, disse.
“Cuidar do futuro é investir em educação, é investir em saúde, é investir em emprego de qualidade”, afirmou.
Lula comparou a política de armas aos investimentos em educação e afirmou que seu governo recolheu armas e investiu na distribuição de livros didáticos nas escolas.

Data centers e minerais críticos
Lula também falou sobre investimentos em tecnologia e sobre a exploração de minerais raros e terras raras. A expansão dos data centers, segundo o presidente, deve estar acompanhada de investimentos em geração de energia.
Ele também defendeu a exploração e a industrialização de minerais raros no Brasil. Segundo Lula, o país conhece apenas parte de seu território e precisa ampliar a formação de profissionais para atuar no setor. O objetivo, afirmou, é não se limitar à exportação de minerais brutos.
“A gente quer extraí-la, a gente quer separá-la, a gente quer industrializá-la”, disse.
Ele defendeu ainda que o país avance na produção de produtos tecnológicos e na formação de profissionais em áreas como engenharia, matemática e física.
“A gente quer exportar inteligência, conhecimento, livro, ciência, matéria de informação e desenvolvimento”, afirmou.
Agricultura familiar
Lula também falou sobre a agricultura catarinense e destacou a força das cooperativas e da produção rural no estado. Também mencionou a abertura de novos mercados internacionais para produtos brasileiros.
Janja Lula da Silva lembrou o período em que trabalhou em Anita Garibaldi (SC), quando, segundo ela, se aproximou da agricultura familiar.
“Tenho um carinho muito especial pelos agricultores e, principalmente, pelas agricultoras”, afirmou. Janja também destacou a importância da agricultura familiar e enviou um abraço às agricultoras catarinenses presentes no ato.
Críticas a Bolsonaro e à pandemia
Na parte final do discurso, Lula criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente pela condução da pandemia de Covid-19. O presidente afirmou que não cobrava de Bolsonaro que soubesse tratar a doença, mas que esperava que ele reunisse especialistas e ouvisse orientações científicas.
“Eu só cobrava que ele usasse da inteligência, que montasse o comitê de crise com os especialistas e ouvisse quem entende”, afirmou.
Ele afirmou ainda que o período foi marcado pela morte de centenas de milhares de pessoas e citou famílias que não puderam se despedir de parentes mortos pela Covid-19.
Educação como projeto de país
Ao encerrar o discurso, Lula voltou a tratar da educação e de sua própria trajetória. Ele afirmou que gostaria de ter frequentado uma universidade e disse que, por não ter tido essa oportunidade, passou a defender a ampliação do acesso à educação no país.
“Nós não somos melhor que ninguém. Nós não somos mais burro que ninguém. O que faltou para nós foi oportunidade”, afirmou.
Lula também citou investimentos em universidades, institutos federais, ciência e tecnologia e relacionou a pesquisa científica à descoberta e exploração de petróleo em águas profundas.
Segundo o presidente, recursos provenientes do petróleo devem ser destinados à educação, à ciência, à tecnologia e à saúde.
Ao falar sobre o futuro, Lula disse que pretende ampliar a formação de profissionais e defendeu uma estratégia de desenvolvimento baseada em educação, ciência, tecnologia e soberania.
“A nossa guerra é formar as nossas meninas e os nossos meninos para construir um país que seja grande e soberano”, afirmou.





