Economista da equipe de Flávio defende endurecer regras e elevar idade para aposentadoria


Por Cleber Lourenço

O economista Vladimir Kuhl Teles, integrante da equipe responsável pela elaboração das propostas econômicas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), defendeu o endurecimento das regras da Previdência e criticou a redução da idade mínima para aposentadoria durante a reforma proposta pelo governo Michel Temer, em 2017. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo e reproduzido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), ele considerou insuficientes até mesmo as exigências originalmente apresentadas pelo governo e afirmou que o Brasil precisaria de uma reforma ainda mais radical.

A posição do economista ganha relevância porque ele foi incorporado oficialmente à equipe de Flávio em agosto deste ano, ao lado de outros especialistas encarregados de formular o programa econômico da candidatura. Sua entrada foi anunciada por Adolfo Sachsida, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro e um dos coordenadores da elaboração das propostas.

No artigo, intitulado Governo cedeu demais na reforma da Previdência? Sim, publicado originalmente em 22 de abril de 2017, Vladimir questionou as concessões feitas pelo governo Temer diante da resistência à reforma. Entre elas estava a redução da idade mínima de aposentadoria das mulheres, inicialmente prevista em 65 anos e posteriormente alterada para 62 anos.

O economista também criticou a possibilidade de determinadas categorias se aposentarem mais cedo e a decisão de não submeter servidores estaduais e municipais às mesmas exigências previstas para outros trabalhadores.

Para Vladimir, essas mudanças comprometiam a economia que o governo pretendia alcançar com a reforma. Ele sustentou que, mesmo sem as concessões, a proposta original não seria suficiente para equilibrar as contas previdenciárias no longo prazo.

“O cenário será drástico: em alguns anos precisaremos fazer uma reforma ainda mais radical”, escreveu.

O economista argumentou ainda que o aumento da idade de aposentadoria poderia estimular os trabalhadores a investir mais em sua formação profissional, uma vez que permaneceriam por mais tempo no mercado de trabalho.

Na avaliação apresentada por ele, a redução dos subsídios previdenciários também incentivaria a poupança individual e contribuiria para o crescimento econômico.

As declarações foram feitas antes da reforma aprovada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro. Não há confirmação de que Vladimir mantenha atualmente todas as posições expressas naquele artigo ou de que tenha apresentado uma proposta de nova elevação da idade mínima à campanha de Flávio.

Economista participou da reforma de Bolsonaro

A defesa de regras previdenciárias mais rígidas não ficou restrita aos artigos acadêmicos e de opinião. Vladimir também participou das discussões técnicas da reforma da Previdência conduzida pelo governo Jair Bolsonaro, quando ocupava o cargo de secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Economia.

Em maio de 2019, sua agenda oficial registrou uma reunião com Bruno Bianco, então secretário especial adjunto de Previdência e Trabalho, para tratar da revisão dos cálculos da nova Previdência.

No mês seguinte, Vladimir representou o ministro Paulo Guedes em uma audiência pública no Senado e defendeu a necessidade de mudanças nas regras de aposentadoria para enfrentar o desequilíbrio das contas públicas.

“Não há como solucionar esse problema sem resolver a questão da previdência”, afirmou na ocasião.

Durante a audiência, argumentou que nem mesmo a eliminação de todas as despesas discricionárias federais seria suficiente para compensar o déficit previdenciário. Segundo ele, o envelhecimento da população exigia mudanças estruturais no sistema.

A reforma aprovada naquele ano estabeleceu idade mínima de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres no regime geral, além de alterar regras de transição, tempo de contribuição e cálculo dos benefícios.

Sete anos depois, Vladimir voltou a trabalhar com integrantes da antiga equipe de Paulo Guedes, agora na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O grupo é coordenado por Daniella Marques e Adolfo Sachsida, com quem o economista já havia trabalhado no Ministério da Economia.

Outros dois integrantes da equipe estão ligados a plano de aposentadoria aos 67 anos

A presença de Vladimir na campanha acrescenta um novo elemento às conexões identificadas pelo ICL Notícias entre integrantes da equipe econômica de Flávio e propostas de endurecimento das regras previdenciárias.

Como revelou o ICL Notícias nesta quinta-feira (15), outros dois integrantes do grupo, Alexandre Ywata e Anne Caroline Marciquevik Alves, são diretores da Fundação Internacional para a Liberdade (FIL Brasil), entidade que participou da elaboração de um plano empresarial para elevar a idade mínima de aposentadoria a 67 anos.

O documento, denominado Projeto Brasil de Amanhã, foi entregue a Flávio durante um encontro com empresários em São Paulo, na terça-feira (13).

A proposta prevê elevar gradualmente a idade mínima dos atuais 65 anos para homens e 62 para mulheres até 67 anos para ambos, com períodos de transição distintos. Também defende desvincular o piso previdenciário do salário mínimo, abrindo caminho para mudanças nas regras de atualização dos benefícios.

A entidade responsável pela elaboração do documento, em parceria com o Instituto de Economia Gastão Vidigal, ligado à Associação Comercial de São Paulo (ACSP), tem Paulo Guedes como presidente de honra.

Alexandre Ywata e Anne Caroline constam como diretores da FIL Brasil desde abril de 2024. Ywata foi anunciado oficialmente como integrante da equipe econômica de Flávio em agosto, enquanto Anne Caroline passou a integrar o grupo em julho, a convite de Daniella Marques.

Os vínculos mostram que três integrantes da equipe econômica possuem antecedentes relacionados à defesa ou à discussão de mudanças previdenciárias mais rigorosas: Vladimir, por suas manifestações públicas e participação na reforma de 2019; Ywata e Anne Caroline, pela atuação na direção de uma entidade que ajudou a elaborar o plano de aposentadoria aos 67 anos.

A participação dos dois dirigentes na FIL Brasil não comprova que tenham redigido pessoalmente as propostas previdenciárias. Da mesma forma, o documento empresarial não foi formalmente incorporado ao programa de governo de Flávio.

O plano também propõe revisar critérios de acesso e permanência no Bolsa Família, ampliando mecanismos de fiscalização cadastral.

Em reportagem publicada anteriormente pelo ICL Notícias, foram detalhadas as propostas apresentadas ao candidato, incluindo as mudanças na Previdência e no programa de transferência de renda.

Propostas contrastam com promessas de Flávio

A presença desses economistas na campanha ocorre enquanto Flávio tenta afastar a possibilidade de uma nova reforma da Previdência e promete preservar os direitos dos aposentados.

Em 8 de outubro, o candidato afirmou que garantiria reajustes das aposentadorias acima da inflação. A promessa contrasta com propostas de desvinculação dos benefícios previdenciários dos ganhos reais do salário mínimo discutidas por interlocutores de sua equipe econômica.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), um dos coordenadores políticos da candidatura e responsável pela articulação da reforma previdenciária de 2019, também já defendeu a necessidade de revisitar as regras do sistema.

Em março deste ano, Marinho mencionou a possibilidade de modificar parâmetros ou até mesmo o modelo previdenciário brasileiro.

A composição da equipe econômica reúne profissionais que já defenderam regras mais rigorosas ou mantêm vínculos institucionais com propostas de elevação da idade mínima e alteração dos reajustes previdenciários.





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