O ex-chanceler brasileiro Ernesto Araújo sugere que Flávio Bolsonaro está sendo “competitivo” na eleição presidencial graças ao apoio de Donald Trump. Em textos publicados nas redes sociais, ele faz um raio-x da campanha do representante da extrema direita. Seus comentários, porém, chamaram a atenção dentro do governo por vincular de forma explícita o representante do PL à Casa Branca.
Araújo foi o chanceler do governo de Jair Bolsonaro e acusado de ter transformado o Brasil em ume estado pária. Sob seu comando, afastou o Brasil de posições tradicionais da diplomacia brasileira, comprou brigas com alguns dos maiores sócios comerciais do país e criou, dentro do Itamaraty, uma onda de rejeição poucas vezes vista dentro do órgão.
Hoje, Araújo vive nos EUA e mantém um cargo no conselho da Fundacion Disenso, a entidade criada pelo partido de extrema direita na Espanha, o Vox. Herdeiros do franquismo, seus integrantes adotam posturas contra a imigração e insistem em falar de um suposto passado glorioso da Espanha.
Num dos textos, de 3 de setembro, ele alerta que a candidatura de Flávio Bolsonaro “ainda não está capitalizando a rejeição ao sistema”. Mas ao avaliar a correlação de forças, Araújo critica o Centrão e deixa subentendido que parte de sua força vem dos EUA.
“O que faz a candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026 muito mais competitiva do que a de Jair Bolsonaro em 2022 é que, desta vez, tem Trump e não tem Centrão”, afirmou.
O ex-chanceler não explica o que significa “ter” Trump. Mas a frase, nos bastidores do governo, gerou questionamentos. De fato, em 2022 a presidência nos EUA era de Joe Biden. Nas semanas que antecederam ao voto, representantes da CIA chegaram a viajar ao Brasil para dar um recado aos militares: não embarcaremos em uma aventura autoritária.
Pesquisas de opinião têm revelado que o tarifaço aplicado pelo governo norte-americano contra o Brasil e as ingerências de Trump não têm ajudado Flávio. No governo, portanto, a pergunta que se faz é sobre o que significaria essa constatação de Araújo. “Se não se trata de um apoio público que se converta em votos, o que seria?”, perguntou um experiente embaixador.
Nos últimos dias, revelações feitas pelo site Amado Mundo também abrem perguntas sobre o envolvimento de recursos da extrema direita americana no financiamento da campanha de Flávio Bolsonaro.
Em meados do ano, Flávio Bolsonaro criou um terremoto dentro da chancelaria brasileira quando, ao enviar uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ofereceu criar uma equipe de transição com o envolvimento dos EUA, caso vença a eleição. O gesto, se ocorrer, será inédito na história democrática do país.
Os textos de Ernesto Araújo, por sua vez, tem tentando conceituar justamente o alinhamento de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.
“O movimento revolucionário de sete décadas havia logrado transformar a América Latina numa gigantesca plataforma de ação do bloco totalitário para a destruição da liberdade nos EUA e em todo Ocidente. Trump e corajosos líderes latino-americanos como Javier Milei começaram a reverter esse processo, na impressionante reconquista de um continente que parecia perdido e entregue à China, à Rússia, ao Irã, à destruição cultural esquerdista, à bandidagem ilimitada, à corrosão e perversão completa das instituições chamadas democráticas”, disse. “Mas, sem a participação do Brasil, a metamorfose restauradora da liberdade ficará travada, e logo a borboleta começará novamente a se transformar em lagarta”, alertou o ex-chanceler.
Flávio irá aderir ao projeto militar dos EUA
No dia 5 de setembro, Ernesto Araújo publicou um novo texto no qual volta a falar do papel de Trump e ainda sugere que, sob Flávio Bolsonaro, o Brasil irá aderir ao projeto militar americano na região.
“A proposta de inserção ocidental, especificamente de ingresso no Escudo das Américas e aliança com os EUA, com rejeição da influência chinesa e russa, Flávio já a enunciou. (Aliás, o que salvou sua candidatura, que estava naufragando após a divulgação de áudios com Vorcaro, foi uma conversa e uma foto com Donald Trump – convém recordar.), disse. Flávio, de fato, teria indicado o desejo de adesão quando esteve nos EUA, há poucos meses.
Num outro texto, de 23 de agosto, o ex-chanceler relata como “Lula conseguiu conversar com Donald Trump por telefone” e traça uma avaliação da estratégia do Palácio do Planalto.
Ao explicar uma suposta campanha para isolar Rubio de Trump, ele sugere que o governo pode estar realizando uma “operação de mídia e lobby político que provavelmente não está sendo conduzida senão lateralmente pelo Itamaraty, que não parece possuir hoje a capacidade de conceber ou executar uma megaoperação desse tipo”.
Sua suspeita é de que isso envolveria empresários brasileiros do agro e do setor financeiro com influência em círculos de Washington, além de grandes escritórios de lobby nos EUA. Ele ainda sugere que “contatos podem estar sendo promovidos com as alas da direita pró-russa nos EUA, a direita bolivariana de Tucker Carlson e outros, bem como forças que circulam em torno do Vice-Presidente J. D. Vance, correntes todas estas pouco identificadas com a política de Trump, conduzida por Marco Rubio, para a América Latina”.
“Pode-se especular que os altos círculos de poder do Brasil estejam, ademais, procurando mobilizar os amigos chineses, com grande inserção em Washington, para queimar Rubio e amenizar a relação através de Trump. Sim, o United Front Work Department (UFWD) e outros instrumentos de infiltração e cooptação chineses continuam tendo força nos EUA, embora talvez menos do que no governo Biden. Pode-se perguntar inclusive se gigantes brasileiros do agro e das finanças com presença nos EUA não estariam atuando em Washington em favor dos interesses chineses tanto quanto dos interesses de Lula e seu sistema de poder (que no fundo são os mesmos), ponderou.
Araújo deixa subentendido que, se a extrema direita vencer, o Brasil irá aderir ao projeto militar dos EUA na América Latina, conhecido como o Escudo das Américas.
“Existe a possibilidade concreta de que, em aliança com os EUA e através do Escudo das Américas, um eventual governo Flávio Bolsonaro consiga não somente ganhar a eleição, mas realmente chegar ao poder, ou seja desalojar do poder e extirpar todo o esquema criminal-socialista do Foro de São Paulo que se adonou do Brasil em aliança com a China”, disse.
“Na disputa pelo poder no Brasil existe muito em jogo, justamente, para a própria China, que vem perdendo sua plataforma de atuação hegemônica em todas as outras partes da América Latina, mas que, se lograr preservar sob seu predomínio o Brasil, terá salvo o principal, estancará a sangria e poderá recuperar, mais adiante, o espaço perdido no restante da região”, avalia.
Segundo ele, o que Lula tenta fazer é “que os EUA se abstenham de qualquer apoio a Flávio Bolsonaro nas eleições e de qualquer expectativa de que o Brasil ingresse no Escudo das Américas”.





