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Por Gil Luiz Mendes — Ponte Jornalismo
O anúncio do programa de trainees da Leroy Merlin, estampado por pessoas negras e a promessa de impactar positivamente o futuro, fez com que uma jovem de 28 anos, do interior de São Paulo, largasse o jornalismo e se candidatasse a uma das vagas. Aprovada, ela afirma que, logo nos primeiros dias fazendo parte da empresa, percebeu que o discurso estava apenas na propaganda da rede de lojas de material de construção.
“A Leroy Merlin teria tudo para utilizar trabalho escravo em suas lojas no Brasil, o que traria significativa economia de impostos, mas não o faz porque é uma empresa muito boa”, teria dito o espanhol Ignacio Sánchez Villares, o CEO da Leroy Merlin no Brasil, durante evento para receber os novos trainees do ano de 2024. A fala, que a jovem considerou racista, veio em resposta a um questionamento seu sobre o motivo de tão poucos negros terem sido selecionados — contrariando, segundo ela, o que a aparecia nos post das redes sociais da rede francesa de varejo.
“Foram 32 trainees selecionados. Desses, apenas duas pessoas pretas: eu e mais uma. Questionei o fato no primeiro dia da integração. Umas das diretoras falou que era muito difícil colocar na cabeça dos executivos sobre como funcionava o nosso país, porque lá não tinha isso e que o Brasil era o único lugar que tinha um comitê de diversidade”, conta a jovem, enfatizando que seu questionamento teria gerado incômodo junto à chefia.
Ela afirma que durante todo o treinamento, que durou quatro dias em março de 2024, teve sua atenção chamada por conta da fala feita no início do evento. Antes mesmo da resposta dada pelo CEO, a ex-trainee relatou ter questionado o também espanhol Vicente Fernando Sanz, diretor da regional São Paulo da Leroy Merlin, sobre a ausência de pessoas negras na empresa.
“Perguntei como era pra ele a questão da diversidade, principalmente racial. Ele falou que não se importava. Eu lembrei que ele estava num país onde mais de 50% da população se autodeclara preta. Na Leroy Merlin, os funcionários de base são quase todos pretos. Aí ele falou que ele não via a questão da pele, mas se a pessoa podia assumir o cargo ou não. Retruquei questionando quantas pessoas pretas ele tinha promovido e ele pegou e falou: nenhuma”.
Anúncio do programa de trainees da Leroy Merlin no Instagram (Foto: Reprodução / Instagram)
Compliance na França teria confirmado racismo
De acordo com a jovem, a resposta do CEO Ignácio Sanchez Villares foi presenciada por todos os trainees e vários diretores da Leroy Merlin, inclusive Alexandre Souza, diretor do Comitê de Pessoas Pretas da empresa. Ela também afirmou que as duas únicas trainees negras sentiram-se agredidas pelo comentário do executivo.
“No fim do evento houve uma confraternização entre todos os presentes e fomos levadas para uma sala à parte. A outra menina caiu no choro pelo que ouviu do CEO e teve que ser amparada por outros diretores”, conta a ex-treinee. As duas seguiram no treinamento da empresa, mas a jovem do interior paulista relata que começou a perceber ter ficado marcada pelos gestores por causa do seu posicionamento. Ela afirma que sentiu uma perseguição velada por parte da chefia durante o tempo em que trabalhou na empresa.
“O Ignácio não ia à loja onde eu trabalhei durante mais de três anos. No período em que estava lá, ele anunciou três vezes que iria fazer uma visita ao local, mas sempre desmarcou em cima da hora. Quando o CEO da empresa diz que vai numa loja no interior, isso gera toda uma mobilização na loja e causa estresse entre os funcionários, chegando a mexer com a nossa saúde”, explica a jovem.
A trainee relata então ter aberto uma reclamação no setor de compliance da empresa, que fica sob responsabilidade da matriz na França. Após o inquérito interno, a ADEO, holding empresarial que controla a Leroy Merlin, teria admitido que a fala de Ignácio Sánchez Villares foi racista. Porém, causou espanto na jovem o fato de que nenhum tipo de punição a ele ou de mudança de postura por parte da rede varejista ocorreu.
“Tive uma reunião online com os franceses da área de compliance em dezembro do ano passado. Eles falaram que na investigação, conversaram com algumas pessoas, que o CEO não teve a intenção de ser racista, porém, dentro do contexto do Brasil, que ele havia sido racista. Respondi que não estava lidando com a intenção do Ignácio. Eu não fui contratada por ele, mas pela Leroy Merlin, que tem um código de ética que deveria me proteger. Me senti muito vulnerável e exposta”, diz.
‘Reiterada discriminação’
Ao final de seu período de um ano como trainee, a jovem entregou o seu projeto de conclusão e seria promovida ao cargo de gerente de setor — mas em uma loja em outra cidade, onde não tinha parentes nem rede de apoio. A mudança teria que ser feita em poucos dias e, diante dessas condições, ela disse que aceitava a promoção, mas não a transferência. Em março deste ano ela foi demitida.
Na petição direcionada à Justiça do Trabalho, o advogado da jovem, Henrique Forti Silva, alega que “a sequência cronológica e o conjunto dos eventos comprovam, de forma inequívoca, que a parte reclamante sofreu reiterada, institucional e estruturada discriminação, tanto por sua raça, quanto por ter denunciado injúria racial praticada pelo CEO da reclamada”.
A defesa da jovem ressalta que a ação “não se trata de uma busca por dinheiro, mas de uma exigência de responsabilização, justiça e reparação pública por atos de injúria racial institucionalizada dentro de uma das maiores varejistas do país”. Segundo o advogado da ex-trainee, a Leroy Merlin entrou com uma ação pedindo que o processo siga em segredo de justiça, mas o pedido ainda está sob avaliação.
O que diz a Leroy Merlin
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Leroy Merlin afirma que tem “compromisso inegociável com a ética, a transparência e o respeito a todas as pessoas que fazem parte do seu ambiente de trabalho”. A empresa também diz que “não tolera qualquer forma de discriminação, assédio ou prática que viole os direitos humanos e trabalhistas”.
Sobre a demissão da jovem, a Leroy Merlin informou que ela “foi aprovada para uma vaga de Gerente Comercial em outra loja, na mesma regional e Estado, a mesma agradeceu formalmente por todo o desenvolvimento profissional, porém declinou a promoção e, ao final do programa de trainee, seu contrato foi encerrado”.
Leia a íntegra da nota da empresa
A Leroy Merlin reafirma o seu compromisso inegociável com a ética, a transparência e o respeito a todas as pessoas que fazem parte do seu ambiente de trabalho. A companhia não tolera qualquer forma de discriminação, assédio ou prática que viole os direitos humanos e trabalhistas. A cultura da empresa é pautada na valorização das pessoas, na diversidade e na construção de um ambiente de trabalho justo e inclusivo. A empresa esclarece que o caso em questão e todos os relatos no Canal de Escuta Ética são analisados e tratados em sigilo e máxima seriedade. Reforça que para esse caso dará continuidade quando citada oficialmente na esfera judicial, e acompanhará os seus desdobramentos com o devido respeito às partes envolvidas.
Em relação ao programa de trainees, esclarecemos que sua estrutura contempla, desde o início, a possibilidade de movimentações geográficas (em média 20% dos participantes mudam de loja), como parte do plano de desenvolvimento profissional. No caso citado, a colaboradora foi aprovada para uma vaga de Gerente Comercial em outra loja, na mesma regional e Estado, a mesma agradeceu formalmente por todo o desenvolvimento profissional, porém declinou a promoção e, ao final do programa de trainee, seu contrato foi encerrado.
Ao longo de mais de uma década, a Leroy Merlin tem implementado ações concretas e contínuas para a promoção da diversidade, da equidade e da inclusão, hoje alcançando 44% de mulheres e 29% de negros em posições de liderança (um crescimento de 15 e 11 pontos percentuais respectivamente, nesse período). A companhia revisita permanentemente as suas políticas internas, seus mecanismos de escuta e seus protocolos de governança. Temos convicção de que promover um ambiente de trabalho respeitoso e plural é uma construção contínua e um compromisso da companhia.
Fonte: ICL Notícias




