Inadimplência bancária atinge 4,4% e bate recorde no Brasil


A taxa média de inadimplência nas operações de crédito do sistema financeiro brasileiro avançou para 4,4% em abril, o maior patamar da série histórica revisada do Banco Central, iniciada em 2011. O nível repete o registrado em fevereiro e reforça a tendência de deterioração da qualidade do crédito no país. Os dados são do relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito, divulgado nesta quinta-feira (28) pelo BC.

O indicador considera operações com atraso superior a 90 dias, abrangendo tanto pessoas físicas quanto empresas.

O novo pico ocorre às vésperas da implementação do Desenrola 2.0, programa federal de renegociação de dívidas voltado a consumidores endividados, lançado em maio.

Famílias puxam alta da inadimplência

Entre as pessoas físicas, a inadimplência subiu de 5,3% em março para 5,4% em abril, o maior nível desde maio de 2012. O movimento reforça a pressão sobre o orçamento das famílias, em um ambiente de crédito caro e elevado comprometimento de renda.

Nas empresas, o índice permaneceu estável em 2,8%, mesmo patamar de março. Ainda assim, trata-se do maior nível desde 2018, indicando que a dificuldade de pagamento também se dissemina no setor corporativo, embora de forma mais contida.

Endividamento elevado sustenta pressão

Os dados do Banco Central mostram ainda que o endividamento das famílias segue em patamar historicamente alto. Em abril, a relação entre dívidas e renda acumulada em 12 meses ficou em 49,8%, praticamente estável em relação a março (49,9%), mas bem acima da média da série (41,9%).

Segundo a Serasa Experian, cerca de 82,8 milhões de brasileiros estavam endividados em março, o equivalente a 49% da população. Quase metade dessas dívidas está concentrada no sistema financeiro, segmento diretamente atingido pelo novo programa de renegociação.

Desenrola 2.0 tenta conter avanço das dívidas

O Desenrola 2.0 foi lançado no início de maio com foco em consumidores de baixa e média renda, com ganhos de até cinco salários mínimos. O programa prevê renegociação de dívidas bancárias com atraso entre 90 dias e dois anos.

Entre as condições estão descontos que podem chegar a 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e prazos de até 48 meses para pagamento. Também há possibilidade de uso de parte do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS0 para quitar débitos.

A iniciativa busca reduzir a pressão sobre o crédito e facilitar a recomposição financeira das famílias em um ambiente de juros ainda elevados.

Crédito cresce, mas custo permanece alto

Apesar do avanço da inadimplência, o volume de crédito no país continua em expansão. O estoque total do Sistema Financeiro Nacional atingiu R$ 7,2 trilhões em abril, alta de 0,3% no mês e crescimento de 9,3% em 12 meses.

O crédito às famílias somou R$ 4,6 trilhões, enquanto o destinado às empresas ficou em R$ 2,7 trilhões.

As concessões também seguiram em alta, totalizando R$ 691,5 bilhões no mês. No entanto, o custo do crédito permanece elevado: a taxa média das concessões chegou a 33,8% ao ano, com o crédito livre às pessoas físicas atingindo 63% ao ano.

Juros altos pressionam inadimplência

O ambiente de juros elevados segue como um dos principais fatores de pressão sobre a inadimplência. No crédito livre, mais sensível ao ciclo econômico, a taxa média alcançou 49,5% ao ano em abril.

O Banco Central também registrou aumento do spread bancário, diferença entre o custo de captação e o juro cobrado dos clientes, que chegou a 22,6 pontos percentuais.

Nesse contexto, o aumento da inadimplência reflete uma combinação de crédito caro, endividamento elevado e maior dificuldade de rolagem de dívidas, especialmente entre famílias.

Expansão do crédito e maior risco

Mesmo com crescimento contínuo do crédito e dos agregados monetários, os indicadores apontam para um sistema financeiro em fase de maior cautela. A expansão do crédito não tem sido suficiente para compensar o aumento do risco de inadimplência e do custo das operações.

O quadro sugere um momento de transição: de um lado, manutenção da oferta de crédito; de outro, deterioração da capacidade de pagamento de parte relevante dos tomadores, sobretudo famílias mais endividadas.





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