Jesus Cristo no Olubajé – ICL Notícias


O avanço no Brasil de certas designações cristãs que fundamentam práticas e discursos na intolerância, no racismo religioso, no proselitismo político e na exploração mais obscena da fé, é dos mais tristes e perigosos fenômenos dos nossos tempos vertiginosos.

Não preciso ser cristão para respeitar e me comover com as festas cristãs: o Círio de Nossa Senhora de Nazaré; a festa de São Jorge; as festa dos santos juninos; os cantos, louvores, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros, dádivas e bordados do ciclo da Natividade de Cristo. Todas as celebrações, enfim, que subvertem pelos ritos a miudeza provisória da vida.

O meu Jesus Cristo, filho de Maria Santíssima, está nos presépios mais precários, nas bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, nos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e nas folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam – entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos pelos donos da casa – os Santos Reis do Oriente.

Conforme escrevi em um livro antigo, o Cristo dos meus delírios se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Ele se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos do Círio do que nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia. Deve respeito – e é respeitado – a Tupã, Zambiapungo e Olorum.

Eu cresci em um terreiro e sei que em nome do machado de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do leque espelhado de Oxum e do arco e flecha de Oxossi não há um só genocídio realizado na história dos povos. Nunca ocorreu qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A folha da jurema cura. A insígnia dos deuses que dançam nunca foi a mortalha de mulheres e homens comuns.

Jesus Cristo seria muito bem recebido no Olubajé, o grande banquete que reverencia Omolu. Certamente seria convidado, como todos que entram no terreiro neste dia, a tomar um banho de doburu e se alimentar com o axé dos abarás, omolocuns, acarajés, canjicas e acaçás servidos em folhas de mamona. O Cristo que me foi ensinado, e que respeito profundamente, não se furtaria ao ofertório do Senhor da palha.

Estamos em um ano eleitoral e o proselitismo religioso, não nos enganemos, estará na ordem do dia, evocado de forma obscena pelos que se arvoram a homens de bem em seus púlpitos e templos.

De minha parte, seguirei falando sobre os legados de beleza, ciência, filosofia e percepção ampla e inclusiva de mundo que, oriundos das praias, macaias, aldeias e esquinas, concedem dignidade a tanta gente brasileira. A porta da casa está aberta, saibam disso, mas tem quem zele pela integridade do portão.





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