“Hora de limpar RI (Relações Internacionais). PUC não é para árabe. A PUC é nossa. A reitoria é nossa.” Quando a mensagem xenófoba foi deixada no banheiro da PUC de São Paulo, em 18 de março, a reitoria apressou-se em cobrir a pichação com tinta e divulgar uma protocolar nota de repúdio à comunidade acadêmica. Professores e alunos do curso mencionado na ameaça dizem desconhecer qualquer outra providência tomada pela universidade. Aparentemente, nem mesmo foi instaurada uma comissão para investigar o ataque e identificar os responsáveis. Na verdade, há quem tema que a tal “limpeza” não seja apenas conversa fiada.
Resultado de uma parceria público-privada verdadeiramente bem-sucedida, o Programa San Tiago Dantas de Pós-graduação em Relações Internacionais está com os dias contados. O padre José Rodolpho Perazzolo, diretor-executivo da Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC de São Paulo, chegou a dar a “extrema-unção” ao curso quando o professor Reginaldo Nasser, coordenador do programa na instituição, solicitou informações sobre a renovação do convênio que há 23 anos viabiliza a formação de mestres e doutores em parceria com a Unicamp e a Unesp.
“Eu achava que a extrema-unção só era dada a quem já estava morto, mas o padre Rodolpho esclareceu que não: o sacramento é concedido a enfermos em estado grave, mas ainda vivos”, recorda Nasser. “Ele sugeriu que eu procurasse o novo reitor da PUC, então imaginei que ainda havia uma chance de salvar o curso.” As esperanças caíram por terra em fevereiro, quando os docentes foram informados sobre a supressão da carga horária correspondente à pós e a consequente redução de salários. Além disso, alunos de mestrado e doutorado vinculados à PUC se surpreenderam ao descobrir que seus nomes não constavam mais no sistema da universidade.
Há meses, a Fundasp se nega a assinar a renovação do convênio, mas tampouco anuncia seu fim. Ninguém sabe se o curso está vivo ou se é o momento das exéquias fúnebres. A novela começou em junho de 2024, quando a Coordenação do San Tiago Dantas encaminhou à Pró-Reitoria de Pós-Graduação da PUC o termo para a renovação do convênio, como ocorre todos os anos. Em agosto, o documento foi enviado à Fundasp, e lá permaneceu. Após sucessivos pedidos de esclarecimento, o padre Rodolpho só se dispôs a atender Nasser em 12 de novembro. Foi quando o religioso comunicou que o curso encontrava-se por um fio. Detalhe: naquele momento, a PUC estava concluindo seu processo seletivo para incorporar novos alunos na pós.
Neste encontro, representantes da Fundasp alegaram que o programa San Tiago Dantas tinha um custo elevado para a universidade. Atualmente, 22 pesquisadores vinculados à PUC são isentos do pagamento de mensalidades, assim como os demais alunos das universidades públicas parceiras. Tem sido assim há 23 anos, com inegável êxito acadêmico. Com conceito 5 na Capes, a pós-graduação se destaca na formação de professores de Relações Internacionais. Entre 2012 e 2020, metade dos egressos atuou na docência do ensino superior – e 32 ingressaram em universidades federais. Na prática, o principal encargo da PUC é o pagamento de 140 horas de dedicação de quatro docentes da pós. As aulas ocorrem em um edifício da Unesp, que também oferece suporte administrativo aos alunos.
Em 2024, a PUC registrou um superávit de 33 milhões de reais, valor 5,7% maior que o do ano anterior, segundo dados divulgados pela Fundasp ao Conselho Universitário. “A PUC tem mais de 580 alunos regularmente matriculados na graduação em Relações Internacionais, que pagam uma mensalidade de quase 4,5 mil reais. Trata-se de um dos cursos mais lucrativos da universidade. Se reservar o valor pago por apenas dez alunos de graduação, você já cobriria os gastos desses nove alunos que entram na pós a cada ano”, afirma Rafaella Sportelli, vice-presidente do Centro Acadêmico. “Encerrar esse convênio é um tiro no pé, pois grande parte dos estudantes que escolhem a PUC para cursar RI tem a ambição de prosseguir os estudos no San Tiago Dantas. Como a razão econômica é tão infundada, só nos resta concluir que se trata mesmo de uma decisão política.”
Professores e alunos refutam alegações financeiras para o fim do convênio e apontam motivação política
Sportelli lembra que, em outubro do ano passado, dois professores do departamento foram alvo de uma denúncia anônima por supostas práticas antissemitas: Nasser, de origem árabe, e Bruno Huberman, que é judeu. “Fomos chamados a prestar esclarecimentos sem conhecer o teor das acusações, que não tinham fundamento algum. Perguntaram se eu apoiava o Hamas, o que achava da frase ‘Palestina do rio ao mar’, coisas que jamais havia dito ou escrito”, lembra Nasser. A sindicância concluiu que não houve qualquer ato passível de sanção disciplinar. Ainda assim, a Fundasp decidiu publicar um novo “Protocolo Antidiscriminatório” para a universidade, com uma menção específica à prática do antissemitismo e uma controversa definição proposta pela Aliança Internacional para Memória do Holocausto, que também considera antissemitas “as manifestações contra o Estado de Israel, enquanto coletividade judaica” – uma forma engenhosa de amordaçar os críticos dos crimes cometidos pelo governo israelense em Gaza.
Doutoranda do programa San Tiago Dantas, Karime Cheaito diz que descobriu por acaso que não era mais aluna da PUC. “Após os professores comentarem sobre a redução de horas, tentei emitir um certificado no sistema da universidade e constava que eu não estava mais matriculada. Todos os meus colegas estão na mesma situação, inclusive quem tem – ou tinha – bolsa da Capes.” Preocupada, a pesquisadora enviou um e-mail à Secretaria da Pós-Graduação pedindo esclarecimentos, e recebeu uma lacônica resposta: “Está em tramitação interna assunto referente a renovação do San Tiago Dantas para 1/2025. Favor aguardar o parecer da decisão da Fundasp”.
A mensagem é datada de 20 de março. Desde então, ela continua sem saber se poderá ou não concluir sua pesquisa e obter o título de doutora. Atendendo aos apelos de professores e alunos, um grupo de parlamentares liderado por Guilherme Boulos, do PSOL, enviou um ofício à Fundasp e à PUC manifestando preocupação com o encerramento do convênio. “A PUC tem um histórico de resistência à ditadura e de defesa da democracia. Por isso, causa estranhamento essa postura. Como não existe justificativa financeira plausível, estamos falando de valores irrisórios, tudo indica que se trata de uma decisão política para atingir o professor Nasser”, diz Boulos.
Assim como os parlamentares, os professores e os alunos do curso, CartaCapital não recebeu qualquer resposta aos pedidos de entrevista endereçados ao padre Rodolpho, da Fundasp, e ao reitor da PUC, Vidal Serrano Nunes Júnior. As assessorias de comunicação das duas entidades tampouco responderam as perguntas encaminhadas pela reportagem. •
Publicado na edição n° 1356 de CartaCapital, em 09 de abril de 2025.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Macartismo sionista’
Por: Carta Capital