O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja neste domingo para a cúpula do G7, em Evian. Na sua agenda, o brasileiro questionará o comportamento dos países, buscará diversificar mercados e, uma vez mais, estará na mesma sala de reunião com Donald Trump. De olho nas eleições, o presidente deve alternar mensagens ao líderes estrangeiros e tentar fortalecer sua imagem de interlocutor no cenário internacional.
O evento está sendo marcado por um mal-estar entre europeus e americanos, enquanto as cidades no entorno da cúpula vivem protestos e confrontos entre a polícia local e manifestantes.
Lula foi convidado por Emmanuel Macron para participar do evento, mas fontes em Brasília indicaram que o brasileiro hesitou em aceitar a viagem. A avaliação é de que o G7 não representa mais o centro do poder mundial, não tem legitimidade para tomar decisões e não envolve os emergentes.
Para completar, os textos da declarações não contam com a participação do Brasil e Lula terá apenas alguns minutos para suas falas. Mesmo assim, a opção da presidência foi por participar da evento.

Críticas aos ricos
Lula levará ao evento críticas ao protecionismo dos países ricos. Na avaliação do Brasil, as barreiras adotadas por diferentes atores são reveladores da crise do multilateralismo e, em muitos casos, da suspensão de regras comerciais que, por décadas, ordenaram como cada país deve tratar o fluxo de bens pelo mundo.
A postura do governo Lula é de que, se o G7 quer avaliar os fatores que criam turbulência no mercado internacional, um dos principais é a fragilidade de regras. Para empresas e governos de economias emergentes, esse é um elemento de incerteza.
O brasileiro ainda defenderá reformas na governança global e insistirá que um bloco que reúnem apenas uma parcela da economia mundial não pode tomar a decisão por todos.
Gastos com armas
Lula também cobrará os países ricos pela opção de aumentar gastos em armas e reduzir as contribuições para o combate à fome e pobreza. Já no ano passado, a entidade Oxfam alertou que, pelo desenho dos orçamentos dos países ricos, a previsão era de que os membros do G7 iriam promover um corte sem precedentes ao mundo.
O bloco, que em conjunto responde por cerca de três quartos de toda a ajuda oficial ao desenvolvimento, deverá reduzir seus gastos com ajuda em 28% em 2026, em comparação com os níveis de 2024.
Este seria o maior corte na ajuda desde a criação do G7, nos anos 70, e a maior redução desde que esses programas começaram a ser criados nos anos 60.
Para a Oxfam, 2026 marcará o terceiro ano consecutivo de declínio nos gastos com ajuda externa do G7 — uma tendência não vista desde a década de 1990.
Se esses cortes forem adiante, os níveis de ajuda do G7 em 2026 cairão US$ 44 bilhões, para apenas US$ 112 bilhões. Os cortes estão sendo impulsionados principalmente pelos EUA (redução de US$ 33 bilhões), Alemanha (redução de US$ 3,5 bilhões), Reino Unido (redução de US$ 5 bilhões) e França (redução de US$ 3 bilhões).
Reorganização do comércio
Parte da viagem ainda será destinada a buscar alternativas às tarifas americanas e diversificar a exportação nacional. Com o Japão, Lula deve ter uma reunião bilateral na terça-feira com o objetivo de lançar negociações para a criação de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a economia asiática.
Lula ainda pode ter um encontro com a União Europeia num momento chave para as negociações que visam reabrir o mercado do Velho Continente para a carne nacional.
Reencontro com Trump
Lula e Trump estarão na mesma reunião e um aperto de mãos é provável. Por enquanto, porém, não existe uma sinalização de que um encontro bilateral ocorra. Para negociadores, tudo dependia dos avanços das conversas técnicas entre os dois lados.
O Palácio do Planalto não acredita que haja interesse e nem conveniência em realizar um encontro, sem que temas específicos possam gerar resultados concretos.
O Brasil considera que existe espaço para convencer os americanos a evitar a imposição das tarifas de 25% anunciada por Trump e que entrariam em vigor em meados de julho.
Lula não deve usar seu discurso para denunciar Trump e sua mensagem não será focada apenas contra os EUA. A avaliação do governo é de que, enquanto está ocorrendo uma negociação, não faria sentido atacar o outro lado. O Brasil ainda quer dar um sinal de que quer resolver o problema das tarifas, e não dar argumento para que outro lado justifique uma interrupção no diálogo.
A mudança de foco se contrasta com o tom usado por Lula internamente no Brasil, com discursos duros contra Trump. A avaliação, porém, é que existe internamente um contexto de disputa política. Mas não faria sentido capturar uma reunião internacional para transformar em palanque doméstico.
Ainda assim, fontes próximas ao presidente garantem que as mensagem serão devidamente passadas.
A agenda de Lula em Evian
Dia 15 de Junho, segunda-feira
09h00 – Chega a Genebra, Suíça
Reunião bilateral do presidente com o presidente da Federação Suíça, Guy Parmelin, em Genebra
12h00 – Chegada prevista ao Hotel Royal, em Evian.
Provável reunião com Emmanuel Macron
Dia 16 de junho, terça-feira
Possíveis reuniões bilaterais em Evian com primeira-ministra do Japão, Tanae Takaishi, com UE e Egito
15H15 – Reunião do G7 ampliado sobre solidariedade internacional aos países em desenvolvimento
Dia 17 de junho, quarta-feira
09h30 – reunião do G7 ampliado sobre crescimento equilibrado.
12h30 – almoço do G7 ampliado sobre IA, com a presença de CEOs de Big Techs.
17h00 – Embarque de volta ao Brasil



