O Brasil refém do fundamentalismo bolsonarista


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Por Cleber Lourenço

As manifestações públicas de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro diante do aumento tarifário imposto pelo governo Trump ao Brasil não são apenas retóricas inflamadas. Elas revelam, de forma escancarada, uma estratégia perigosa, que transforma a economia, a política e a soberania brasileiras em peças de barganha de um projeto pessoal de poder. Ao se dirigirem ao país, os Bolsonaro colocaram os interesses nacionais reféns de uma agenda ideológica e de suas próprias ambições.

Não é trivial ouvir de um senador da República a afirmação de que, para evitar tarifas ainda mais pesadas, o Congresso precisa aprovar imediatamente uma anistia ampla para os golpistas do 8 de janeiro. Não é trivial ver um deputado federal batizar a medida americana de “Tarifa Moraes” e apresentar ao Brasil um ultimato de três semanas para que o país se curve às suas pautas, sob pena de mais danos econômicos. Não é trivial, tampouco, que um ex-presidente reconheça publicamente a legitimidade da punição imposta por um governo estrangeiro como resposta a decisões soberanas do Supremo Tribunal Federal e do governo brasileiro, numa espécie de endosso à retaliação externa.

QUER ESCAPAR? Bolsonarista

As falas de Jair Bolsonaro e de seus filhos diante das tarifas de Trump expõem uma chantagem política inaceitável

Essa postura não é apenas uma demonstração de subserviência internacional. É um ato explícito de chantagem política interna. Um sequestro simbólico do país, em que os Bolsonaro se colocam como intermediários de um castigo externo para forçar o Congresso, o STF e o governo a aceitarem sua agenda. Trata-se da lógica do refém: produtores rurais, exportadores, trabalhadores da indústria e até a própria democracia são usados como escudo por um grupo que não hesita em priorizar interesses pessoais e ideológicos em detrimento do bem-estar coletivo.

Ao aceitar, justificar e até endossar uma tarifa que prejudica diretamente milhares de brasileiros, os Bolsonaro demonstram que a lealdade aos próprios objetivos está acima de qualquer preocupação nacional. Ao condicionar a normalidade institucional à anistia de aliados, à derrubada de decisões do STF e à reinterpretação de valores democráticos, insinuam que só existe um caminho aceitável: aquele que eles mesmos determinam. Tudo o que não se encaixa nessa narrativa é tratado como “autoritarismo” e punido com mais caos e desordem.

Essa estratégia lembra os piores exemplos internacionais: grupos como Talibã e Al-Qaeda, que sequestram a própria sociedade para alcançar objetivos políticos, usando o dano coletivo como moeda de troca, muitas vezes com o patrocínio inicial dos próprios Estados Unidos, assim como o trumpismo endossa e patrocina a agenda bolsonarista.

Não se trata apenas de um jogo político duro; é a institucionalização de uma lógica perversa, que mina a confiança nas instituições, deteriora a imagem do país no exterior e compromete a estabilidade econômica e democrática. Não há explosões, mas há uma corrosão diária e intencional das instituições. Não há um campo de batalha físico, mas há um campo minado de ameaças e chantagens.

O mais grave é que essa narrativa vem embalada em discursos moralistas e messiânicos, que invocam Deus, liberdade e civilização para justificar uma cruzada política que, no fundo, não passa de um mecanismo para preservar privilégios e escapar da responsabilização. Essa retórica reforça a divisão do país e transforma cada brasileiro em refém de uma disputa que deveria ter sido encerrada nas urnas.

É preciso dar nome a isso: chantagem. É preciso também reagir à altura, com firmeza e responsabilidade, defendendo a soberania, o Estado de Direito e a democracia contra esse tipo de tática. Porque quem faz reféns uma vez não hesitará em fazê-lo de novo — e cada vez com mais ousadia, se não for contido.





Fonte: ICL Notícias

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