Quando a Netflix lançou seu serviço independente em 2010, a assinatura custava US$ 7,99 por mês e não tinha anúncios. Hoje o plano sem publicidade sai por algo entre US$ 19,99 e US$ 26,99 (para o modo 4K e HDR). O Disney Plus estreou em 2019 a US$6,99 e agora cobra US$ 18,99 pela versão sem comerciais. A experiência sem anúncio, que era o diferencial básico do streaming, virou produto premium.
A promessa original foi desfeita e o streaming, que se apresentava como alternativa à televisão, com conteúdo sob demanda, sem intervalo comercial e por preço baixo, mudou. Reed Hastings, então à frente da Netflix, chegou a dizer que o serviço nunca teria publicidade.
A empresa perdeu assinantes pela primeira vez em mais de uma década em 2022 e então decidiu lançar um plano com anúncio no mesmo ano. E agora pretende lançar uma programação linear, contínua, para recriar justamente a televisão que prometeu substituir (e cobrar mais caro para oferecer a fuga do que um dia foi padrão).
O movimento não para no streaming. Não ser bombardeado por anúncios e ter direito a privacidade se tornarão uma oportunidade de negócio. A internet normalizou vigilância, a coleta de dados e publicidade comportamental como o preço invisível do acesso gratuito. Produtos que fogem dessa fórmula são vendidos como opções sofisticadas, com planos pagos para escapar de anúncio, cookie e rastreamento. Privacidade virou novo luxo.
A mesma lógica avança sobre a inteligência artificial. Os produtos chegaram baratos ou gratuitos e, de uns tempos para cá, têm restringido os limites de uso das versões grátis. Cada vez você consegue usar menos tempo sem esbarrar em cobranças por assinaturas.
Uma boa ferramenta de IA caminha para virar item de luxo, do mesmo jeito que consumir conteúdo sem ser vigiado já é. O que antes era padrão se transforma em privilégio de quem pode pagar.
O resultado disso é uma internet dividida. De um lado, quem paga por controle e sossego. Do outro, quem paga com os próprios dados e engole anúncios. No episódio desta semana do RESUMIDO , retomei um levantamento que fiz em 2019, sobre quanto custava usar a internet no dia a dia e o contraste é grande.
De lá para cá, quase tudo migrou para a nuvem e para mensalidade recorrentes, de produtos como Photoshop e outros softwares que antes rodavam na sua máquina aos serviços de streaming.
A conta subiu e a proteção contra a exploração dos próprios dados, que deveria ser um direito básico, agora tem etiqueta de preço.



