Há falas que não escorregam. Elas são ditas com intenção, com convicção — e, pior, com a tranquilidade de quem acredita estar protegido pelo aplauso do passado. A declaração preconceituosa e machista de Zezé Di Camargo sobre as filhas de Silvio Santos não foi um “mal-entendido”, nem um posicionamento político. Foi a tradução crua de um comportamento confortável para alguns homens, ofensivo para todas as mulheres.
O incômodo não está apenas no conteúdo da fala, mas no que ela carrega como subtexto: a ideia de que mulheres, mesmo herdeiras de um império, mesmo profissionais bem-sucedidas, ainda precisam ser enquadradas, julgadas e reduzidas a estereótipos. Como se o legado, a competência e a história delas precisassem passar pelo filtro moral de um homem. Um homem que se sente autorizado a opinar porque fala de um lugar que, durante décadas, não foi questionado.
O que Zezé disse não diz respeito apenas às filhas de Silvio Santos. Diz respeito a todas nós. À executiva, à artista, à anônima. À mulher que cresce ouvindo que precisa se portar melhor, falar menos, rir menos alto, ocupar menos espaço. É o machismo cotidiano, travestido de opinião, de “sinceridade”, de franqueza. Como se ser sincero fosse licença para ser preconceituoso e violento.
Talvez o mais simbólico seja isso: a fala não surpreende, mas cansa. Cansa porque ela revela o quanto ainda precisamos repetir o óbvio. Mulheres não são personagens secundárias na história dos homens. Não são extensões do pai, do marido, do sobrenome. São indivíduos completos, complexos, contraditórios — como qualquer ser humano.
Palavras importam. Especialmente quando vêm de quem tem microfone, palco e memória afetiva com o público.
O Brasil já ouviu Zezé cantar muitas histórias de amor. Está mais do que na hora de aprender a ouvir — e a falar — com respeito, sobre as mulheres que não cabem mais nas velhas letras do machismo.




