Ontem (25/11), o ministro Alexandre de Moraes determinou que Jair Bolsonaro iniciasse o cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses por liderar uma trama para permanecer no poder, a chamada “Trama Golpista”. A notícia atravessou o país em minutos e reorganizou agendas que vinham sendo calibradas no compasso da indefinição judicial: vigílias de aliados, notas de governadores atentos a 2026 e um PL imediatamente ocupado em mensurar o custo-benefício de “coroar” uma nova “dama” para o xadrez nacional.
Prisões de líderes populistas raramente desmobilizam sua base no curto prazo, elas deslocam o centro de comando. A identidade continua operando como recurso coletivo e a máquina se reorganiza para sobreviver quando o líder fica imobilizado. A coalizão construída por Bolsonaro combina uma gramática moral-antissistema com infraestrutura partidária (PL), púlpitos religiosos e um ecossistema digital intenso. Com o “rei” fora do tabuleiro, o jogo não acaba, ele se desloca para os flancos.
É nesse momento que vale mapear quais peças realmente contam: quem detém narrativa, quem controla estrutura e quem tem musculatura para avançar casas próprias.
As peças e seus vetores
O tabuleiro bolsonarista sempre teve a família como núcleo, mas a prisão reorganiza funções e exibe fragilidades.
Michelle Bolsonaro aparece como a “dama” da narrativa. É quem mobiliza a base evangélica e o feminino conservador, personifica o martírio por associação e fala de moralidade com menos rejeição que o marido. Mantém, ainda, a vantagem simbólica do “papel de esposa”, que lhe permite ser protagonista sem parecer ruptura. A questão é sua capacidade de testar uma campanha majoritária sem desgastar o capital devocional que a sustenta.
01 – Flávio Bolsonaro é a “torre” institucional. Mais contido, circula entre PL, centrão e governadores. Sua rejeição é menor que a do pai e seu trânsito no Senado lhe dá ares de fiador de acordos. Problemas antigos: teto eleitoral fora do Rio e passivos jurídicos.
02 – Carlos é o “cavalo” digital. Imprevisível, veloz e essencial na guerra psicológica. É ele quem testa slogans, cria crises táticas e exerce poder de veto interno. Mas seu alcance tem toxicidade alta para além da bolha. No próximo ano, testará a sua força em novo terreno (SC) e novo tipo de campanha (Senado).
03 – Eduardo atua como “bispo” ideológico. Fala ao núcleo radical, mantém pontes internacionais, mas agrega menos do que tensiona; seu discurso tende ao racha, não à coalizão. Atualmente vive nos EUA com a família.
04 – Jair Renan é o “peão de teste”. Sua vitrine em Santa Catarina mede a capacidade de conversão da marca Bolsonaro num contexto menos dependente do patriarca.
Ao redor desse núcleo, surgem as peças pesadas externas: Tarcísio, Zema, Ratinho Júnior e Caiado. São governadores que operam com lógica de gestão e centro-direita. Precisam calibrar a distância do clã sem romper com o símbolo que ainda rende votos.
A máquina e a massa: Valdemar e o PL, os púlpitos evangélicos, influenciadores e setores militares. Controlam recursos, audiência e volume de conteúdo e, por isso mesmo, são fonte constante de disputa.
2. As jogadas do pré-eleitoral
A execução da pena de Jair impõe um vetor: defesa do rei e selagem da base. Família, Michelle e pastores ativam imediatamente narrativas de injustiça e perseguição. O objetivo é transformar a prisão em ativo de mobilização, garantindo que a identidade bolsonarista não se dilua. Flávio, nesse cenário, move-se em outra chave, a redução de danos. Age no Congresso Nacional e na cúpula do PL para evitar rupturas e costurar acordos (Anistia) que preservem a utilidade do clã para 2026.
Paralelamente, ocorre o avanço controlado das peças externas. Governadores testam musculatura nacional: Tarcísio mantém discurso técnico; Zema aposta na imagem de gestor austero; Ratinho e Caiado modulam conservadorismo regional com pragmatismo fiscal. Todos querem ocupar espaço, mas sem afrontar o clã por saberem que o veto familiar pesa.
É nesse ponto que o tabuleiro revela sua tensão principal: coesão x ampliação. Quanto mais “raiz” a narrativa de martírio, maior a rejeição no centro. Mas quanto mais “sapatênis” a tentativa de aproximação institucional, maior o risco de ser acusado de traição. O equilíbrio entre essas duas pressões definirá quem avança.
No plano digital, Carlos e sua constelação de influencers ativam crises seletivas. Policiam aliados que ousam modular discurso, criam cortinas de fumaça quando o custo de imagem sobe e testam novas linhas de mobilização digital. Mas esse poder vem com risco jurídico crescente e cada ataque abre possibilidades de responsabilização futura.
No meio disso tudo, Valdemar age como enxadrista pragmático. O PL maximiza bancada, fundo eleitoral e alianças. Trabalha com duas hipóteses: uma “dama aceitável” (Michelle) ou um governador competitivo que mantenha a estética bolsonarista sem o custo do clã.
Com essas jogadas em curso, vamos ao cenário.
3. O cenário e a contranarrativa
Entre os possíveis caminhos para a direita pós-prisão de Jair Bolsonaro, o cenário mais provável é também o menos glamouroso: o campo sobrevive, mas fragmentado. Dois blocos de sustentação, base social e comportamento das lideranças.
- a) Base social não some com a prisão.
A prisão enfraquece Bolsonaro, mas não desfaz o campo que se estruturou em torno dele. Isso ocorre porque o bolsonarismo é, sobretudo, uma interseção social resiliente. O tripé evangélicos conservadores + forças de segurança + agronegócio, somado à faixa da classe média antipetista, não desaparece porque o líder foi encarcerado. Esses grupos cristalizaram causas (valores, ordem, anti-esquerdismo), repertórios afetivos e identidades políticas que não dependem mais da presença diária de Bolsonaro.
O que tende a desaparecer não é a base, é a centralização dessa base. Sem um comando único, cada segmento busca referências próprias. Isso é, na prática, a definição de fragmentação: uma identidade forte, porém com múltiplos centros.
- b) As lideranças já estão competindo entre si
A prisão somente acelerou uma disputa que já vinha acontecendo. Governadores aliados moveram-se rápido: defenderam Bolsonaro publicamente, mas calibraram discursos pensando em 2026, cada um tentando se credenciar como o porta-voz da “oposição responsável”. Tarcísio fala ao eleitor técnico; Zema tenta ocupar o campo liberal-conservador mineiro; Ratinho Jr. modula pragmatismo; Caiado acena ao conservadorismo rural.
Simultaneamente, o PL testa caminhos: Michelle, algum governador, um filho, ou uma composição que preserve a marca. E a família Bolsonaro, sentindo o risco de perda de centralidade, reage: defende a herança simbólica e tenta vetar movimentos que soem como “traição”.
Resultado: ninguém tem capacidade de ordenar sozinho o campo, mas todos querem capturar o valor político do martírio do “mito”. Essa competição é exatamente o comportamento típico de sistemas que caminham para a fragmentação.
Essa leitura coincide com o cenário base: um bolsonarismo que permanece como identidade, mas pulverizado entre vários polos, família, Michelle, governadores, PL, igrejas e influenciadores. Entre 2026 e 2028, a regra deve ser: a direita ocupará o espaço bolsonarista desordenadamente, marcada por alianças temporárias e conflitos constantes.
Notas conclusivas
A prisão de Bolsonaro reorganiza o vetor institucional da direita, mas não altera sua gramática identitária. O bolsonarismo continua operando como comunidade moral e máquina eleitoral. O que muda é o eixo de comando: a família arbitra vetos, o PL preenche o vácuo com pragmatismo e os governadores testam distância sem romper com o símbolo.
O dilema estrutural permanece: manter a base coesa custa cada vez mais; ampliar para o centro exige modulação que a própria base pune. Sem um novo rosto com capacidade de falar para dentro e para fora, a direita produzirá muito barulho, mas perderá tração nacional.
Quem se movimentará primeiro no tabuleiro: o pragmatismo calculado do PL, a “dama” devocional de Michelle ou a torre de um governador que aprendeu a jogar sem o rei?




