Outra noite em Lisboa – ICL Notícias


 

 

 

Pronto, a noite eleitoral acabou com a vitória de um socialista e com o entusiamo do líder da extrema-direita. Ambos se declararam vencedores — o primeiro porque ficou à frente (31%); o segundo porque segue em frente e disputa o segundo turno (23 %). Assim sendo, segundo ele próprio, é ele que lidera a direita em Portugal. De certa forma, o resumo é este — vitória dos socialistas, pequena vitória da extrema-direita, grande derrota da direita democrática.

Não quero menorizar o que aconteceu: a passagem ao segundo turno da extrema-direita é um choque no sistema democrático. Em França aconteceu pela primeira vez em 2002, quando Le Pen passou ao segundo turno (teve 16, 86%) e a frente republicana, liderada por Chirac, candidato do centro-direita, respondeu com uma intransigente unidade obtendo 82,15 na votação final. Infelizmente não foi isto que aconteceu aqui — a direita democrática (as suas lideranças, bem entendido) recusaram apoiar o candidato socialista e a disputa eleitoral segue agora com o primeiro-ministro afirmando que “não estará envolvido na campanha eleitoral” e que “não emitirá nenhuma indicação”.

Seja como for, “não estar envolvido” significa abandono — e não há pior derrota do que a desistência. Não há dúvida que o alvo do radicalismo populista é a liderança de todo o espaço de direita e a desistência das eleições por parte dos líderes da direita democrática não torna esse objetivo mais difícil — pelo contrário, deixa-lhe o terreno livre. A história que aí vem, a pequena história dos próximos anos, deixará claro a irresponsabilidade — o pior para a direita democrática não é a derrota, mas a demissão de tomar posição a favor da democracia e da República. Isso, sim, é mau. Muito mau.

A sensação dominante da noite eleitoral, a meu ver, é que o país não se quis entregar ao domínio completo da direita. O sucesso do candidato socialista — bem visível no andamento das sondagens ao longo da campanha — vai de par com esse sentimento de perigo: perigo na concentração de poder político; perigo de não haver oposição; perigo na subida eleitoral da extrema-direita. A concentração de votos à esquerda foi um fenômeno profundo e enérgico — a vitória de um socialista traz um ar novo à política portuguesa.

O crescimento da extrema-direita no mundo é um facto, mas a condição tem também um outro lado — os democratas estão a descobrir a sua identidade comum. Um pouco por todo o mundo tomam consciência do que são e do que não querem vir a ser. A ameaça uniu-os e a unidade tornou-os mais fortes. Em última instância se a democracia é o governo do povo é também ao povo que compete defendê-la. Foi o que aconteceu esta noite em Lisboa.





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