A política de abertura econômica adotada pelo presidente Javier Milei tem aprofundado as dificuldades de empresas argentinas e provocado uma onda de fechamentos no país. Desde que o ultraliberal assumiu o poder, em dezembro de 2023, aproximadamente 32,3 mil companhias encerraram suas atividades, o equivalente a 6% do total, segundo levantamento do centro de estudos Fundar.
A retirada de restrições às importações, combinada com medidas de austeridade e a queda do consumo, colocou empresas nacionais diante de uma concorrência mais intensa com produtos estrangeiros. Setores como indústria têxtil, comércio e construção estão entre os mais afetados.
O consumo das famílias, responsável por cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) argentino, caiu 2,7% nos primeiros nove meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a consultoria Scentia.
Os efeitos da crise também aparecem na avaliação do governo. Pesquisa da Giacobbe y Asociados aponta que a desaprovação a Milei chegou a 56% em outubro, enquanto apenas 36% dos entrevistados aprovam sua gestão.
Abertura às importações pressiona indústria nacional
Uma das principais apostas econômicas de Milei foi reduzir as barreiras comerciais para facilitar a entrada de produtos estrangeiros. A medida agradou investidores, mas expôs empresas argentinas à concorrência de mercadorias mais baratas em um momento de enfraquecimento do mercado interno.
Dados oficiais de agosto mostram que a produção industrial recuou 3,2% em relação ao mesmo mês de 2025. O comércio atacadista e varejista caiu 3,5%, enquanto a construção registrou retração de 2,5%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec).
A fabricante de roupas Eseka, responsável pelas marcas Cocot e Dufour, exemplifica a situação. Desde o início do governo Milei, suas vendas diminuíram cerca de 40%, e a empresa reduziu seu quadro de funcionários em aproximadamente 30%.
Mais da metade das máquinas de tricô da fábrica está parada. Outras empresas do setor têxtil também relatam dificuldades para competir com produtos importados, especialmente da China.
Inflação cai, mas economia se aproxima de recessão
Embora Milei tenha conseguido reduzir a inflação de cerca de 200% para 30%, a melhora dos indicadores macroeconômicos não se traduziu em recuperação generalizada da atividade econômica.
A pobreza voltou a atingir quase um terço da população argentina, após ter recuado em 2025 ao menor nível em oito anos.
Economistas avaliam que o país provavelmente entrou em recessão no terceiro trimestre de 2026. O PIB já havia caído 0,6% entre abril e junho, e a consultoria Analytica projeta nova retração, de aproximadamente 1,5%, entre julho e setembro.
O cenário evidencia os resultados desiguais do modelo econômico. Enquanto energia, mineração e agricultura avançam impulsionadas pelas exportações, empresas dependentes do consumo interno enfrentam queda nas vendas e redução de empregos.
Milei rejeita mudanças apesar do desgaste
Mesmo com o fechamento de milhares de empresas e o aumento da desaprovação, Milei descarta alterar sua política econômica.
Um porta-voz do governo afirmou que a recuperação não ocorre de maneira uniforme entre os setores e reiterou que o presidente manterá seu programa.
A resistência a mudanças ocorre a menos de um ano das eleições presidenciais de outubro de 2027, quando Milei deverá disputar um segundo mandato.
Segundo a consultoria Analytica, a economia argentina deve continuar apresentando crescimento desigual entre os setores, com poucas perspectivas de melhora significativa na renda das famílias antes da eleição.





