Por Leila Cangussu
Na última quinta-feira, 29 de janeiro, o Instituto Conhecimento Liberta realizou o Mapa da Mina 2026, encontro anual conduzido por Eduardo Moreira que propõe uma leitura estruturada do cenário econômico, político e social do ano que começa. Ao final do evento, Eduardo disponibilizou o relatório completo com as análises apresentadas ao longo do dia.
O diagnóstico central é: apesar de indicadores pontuais de crescimento e de uma sensação difusa de normalização após anos de crise, o mundo entrou em 2026 mais frágil, mais desigual e mais instável do que os relatórios otimistas costumam admitir.
Essa fragilidade aparece em camadas. Ela está nos dados macroeconômicos globais, mas também na política, na transição energética, na reorganização do mercado de trabalho e no avanço acelerado de tecnologias que concentram renda e poder.
Crescimento global menor, incerteza maior
Segundo dados reunidos a partir de relatórios da ONU, OCDE e FMI, o crescimento global segue abaixo do padrão pré-pandemia. Economias desenvolvidas desaceleram, o comércio industrial perde fôlego e a confiança de empresas e consumidores permanece em níveis historicamente baixos, mesmo quando índices de atividade sugerem resiliência.
O relatório destaca uma contradição importante: o discurso econômico se tornou mais otimista, mas os fundamentos não acompanharam esse movimento. A incerteza política global continua elevada, as tensões comerciais não foram resolvidas e os riscos geopolíticos seguem pressionando cadeias produtivas e preços.
Essa combinação ajuda a explicar por que 2025 terminou com inflação em desaceleração, mas sem alívio real no custo de vida para grande parte da população mundial.
Dólar fraco não é sinal de estabilidade
Um dos pontos centrais do Mapa da Mina 2026 é a leitura sobre o dólar. Diferentemente da narrativa dominante em parte do mercado, o relatório aponta que uma recuperação forte e sustentada da moeda americana é improvável no cenário atual.
O dólar segue pressionado por déficits fiscais persistentes, desequilíbrios em transações correntes e, sobretudo, por um movimento estrutural de diversificação de reservas e investimentos globais. Instituições e grandes investidores vêm reduzindo exposição à moeda americana de forma gradual, mas consistente.
Esse cenário de dólar estruturalmente mais fraco não significa tranquilidade cambial. Pelo contrário: ele convive com picos de volatilidade, especialmente em momentos de estresse político, eleitoral ou geopolítico.

Política monetária menos apertada, mas com limites
O afrouxamento monetário observado em 2025 abriu algum espaço de atuação para bancos centrais, inclusive em economias emergentes. A inflação desacelerou, fluxos de capital se mantiveram robustos e a pressão cambial diminuiu em vários países.
Ainda assim, o relatório alerta que esse movimento não resolve fragilidades estruturais. Mercados de trabalho já dão sinais de desaceleração, a produtividade global não apresentou o salto prometido pela revolução da inteligência artificial e o investimento privado segue fraco em boa parte do mundo desenvolvido.
Ou seja: juros menos pressionados não significam crescimento sustentado nem melhora automática das condições sociais.
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Tecnologia cresce, mas concentra risco
Outro eixo central do Mapa da Mina 2026 é o setor de tecnologia. O relatório reconhece a importância do setor para o crescimento recente, mas chama atenção para um risco crescente de concentração.
Nos Estados Unidos, poucas empresas respondem por parcela desproporcional do desempenho dos índices acionários. As chamadas big techs concentram capital, investimento, dados e influência política, criando uma dependência sistêmica que aumenta a vulnerabilidade do mercado como um todo.
Além disso, a aposta de que a inteligência artificial traria um salto imediato de produtividade ainda não se confirmou. O que se observa, até agora, é ganho de eficiência localizado e aumento de assimetrias, não uma transformação distributiva.

Transição energética que não substitui, apenas soma
Talvez uma das análises mais contundentes do relatório esteja na transição energética. Os investimentos em energia limpa cresceram de forma expressiva e já superam, em volume, os destinados a combustíveis fósseis. Ainda assim, petróleo, gás e carvão seguem presentes — e, em alguns casos, em expansão.
O relatório chama esse fenômeno de paradoxo da transição energética: a energia limpa cresce, mas não substitui a base fóssil existente. Ela se soma a ela. O resultado é um aumento absoluto do consumo energético e das emissões, num mundo que já enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
Dados recentes mostram recordes históricos de concentração de gases de efeito estufa, oceanos mais quentes e impactos diretos sobre produção agrícola, preços de alimentos e pressão fiscal sobre Estados nacionais.
O Brasil dentro desse cenário
No caso brasileiro, o Mapa da Mina 2026 insere o país nesse contexto global de crescimento limitado, volatilidade externa e desafios internos. O relatório aponta oportunidades pontuais, especialmente ligadas a commodities, energia e mercado interno, mas reforça que o Brasil não está isolado das fragilidades globais.
A leitura política também ganha peso em 2026, ano marcado por disputas estratégicas no cenário internacional e pela reorganização de forças no Congresso americano após as eleições de meio de mandato.
Um mapa para entender riscos, não para vender certezas
O Mapa da Mina não se propõe a oferecer respostas fáceis nem promessas de segurança em um mundo instável. A proposta é outra: organizar dados, desmontar narrativas simplificadoras e oferecer ferramentas de leitura crítica.
Em um ambiente em que o mercado insiste em vender previsibilidade, o relatório parte do oposto: reconhecer a complexidade, os limites e os riscos que continuam sendo empurrados para debaixo do tapete.




