Por Ana Clara Ferreira*
Das redes sociais às arquibancadas, os episódios de racismo ganham cada vez mais destaque na Copa do Mundo de 2026. Números divulgados pela FIFA, obtidos a partir das pesquisas do Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS), revelam que mais de 6 milhões de publicações foram monitoradas durante a fase de grupos.
Desse universo, 225 mil publicações e comentários foram encaminhados para revisão humana, processo que levou à identificação de 89 mil conteúdos abusivos. O abuso racial, em todas as suas formas, representou 11% dos casos detectados e foi a categoria mais recorrente entre as manifestações de ódio.
O relatório também mostra que o volume de publicações analisadas cresceu 33% em relação à edição anterior, enquanto cerca de mil contas foram encaminhadas para investigação e mais de 181 mil comentários foram ocultados automaticamente pela ferramenta da entidade.
O prefeito de Londres, Sadiq Khan, indignado, reagiu à onda racista afirmando que o racismo na internet está fora de controle e que muitas das mensagens de ódio são ilegais e devem ser investigadas.
Logo após a fase de grupos se encerrar, a FIFA se pronunciou em comunicado à imprensa, dizendo que esse tipo de discurso é visto como “uma ameaça persistente ao bem-estar dos jogadores”.
Casos envolvendo torcedores argentinos
Em campo, os episódios de racismo de maior repercussão envolvem torcedores da seleção argentina. Durante o torneio, o streamer americano Darren Jason Watkins Jr., conhecido como IShowSpeed, foi alvo de ataques racistas em ao menos duas ocasiões.
O primeiro ocorreu durante a partida entre Argentina e Cabo Verde. Vestindo a camisa da seleção africana, o influenciador transmitia o jogo ao vivo para seus milhões de seguidores quando registrou torcedores argentinos o hostilizando com insultos, gestos obscenos e imitações de macaco.
Nesta terça-feira (7), durante o confronto entre Argentina e Egito, a cena voltou a se repetir. Novamente, IShowSpeed denunciou ter sido alvo de ofensas racistas nas arquibancadas após um homem, vestindo a camisa da Argentina, fazer gestos associados a macacos para o influenciador. Diante da repercussão dos episódios, a FIFA abriu uma investigação para apurar os casos.
Casos de racismo envolvendo grupos de torcedores argentinos não são recentes. Episódios semelhantes foram registrados na Copa América e nas Eliminatórias, mas as punições aplicadas pelas entidades do futebol e pelas autoridades argentinas têm sido questionadas pela falta de maior rigor.
Confira os episódios:
Senadora paraguaia ataca Mbappé
Após a vitória da França sobre o Paraguai, no último sábado (4), o atacante francês, Kylian Mbappé, foi alvo de publicações racistas feitas pela senadora paraguaia Celeste Amarilla nas redes sociais.
Amarilla publicou uma série de insultos racistas contra Mbappé, chamando-o de “camaronês colonizado”, afirmando que ele teria sido criado por “chimpanzés” e dizendo que o goleiro paraguaio, Orlando Gill, deveria ter mostrado o dedo do meio ao camisa 10 francês.
Mbappé foi o autor do gol de pênalti que levou a seleção da França para as quartas de final no Mundial. A senadora disse que se revoltou após assistir à cena em que o goleiro paraguaio, Orlando Gill, ao final da partida, estende a mão ao artilheiro, que, aparentemente, o ignora.
As mensagens levaram a Federação Francesa de Futebol a apresentar uma denúncia, e o Ministério Público francês abriu investigação pelos crimes de injúria racial e incitação ao ódio.
O paradoxo das seleções europeias
Jornalista brasileira foi alvo de racismo nos EUA
Além dos atletas, integrantes da imprensa também passaram por situações constrangedoras. A repórter brasileira Marcella Monteiro, da TV Globo, relatou ter sido submetida a uma fiscalização mais rigorosa ao desembarcar nos Estados Unidos para cobrir o Mundial.
Segundo a profissional, agentes da imigração questionaram repetidamente sua documentação e demonstraram surpresa ao saber que ela era repórter esportiva credenciada para o torneio. A profissional classificou a abordagem como racista e afirmou que outros jornalistas estrangeiros passaram pelo controle migratório sem enfrentar o mesmo tratamento.
Como funciona o protocolo antirracista da FIFA?
O “X”, gesto com os braços, integra a Iniciativa Global contra o Racismo da FIFA, aprovada por todas as 211 associações filiadas à entidade, em 2024. Ao identificar uma possível manifestação racista, atletas, integrantes das comissões técnicas ou a arbitragem podem recorrer ao gesto para solicitar a adoção do protocolo previsto pela instituição.

O procedimento acontece da seguinte forma: inicialmente, o árbitro interrompe o jogo e faz um comunicado ao estádio. Se os episódios continuarem, a partida é suspensa e os times deixam o gramado. Em uma terceira fase, caso as ofensas persistam, o confronto pode ser encerrado de forma definitiva.
O protocolo faz parte de um conjunto mais amplo de medidas que endurecem as punições esportivas, ou seja, busca estimular para que a discriminação seja tratada como crime pelas legislações nacionais. Além de reforçar ações permanentes de conscientização e a criação de um painel consultivo composto por ex-jogadores para monitorar a implementação dessas políticas.
No amistoso entre Espanha e Egito, disputado em março, torcedores espanhóis entoaram gritos islamofóbicos, como “quem não pular é muçulmano”, além de vaiar o hino egípcio. Acionando as medidas antirracistas da FIFA, o sistema de som do estádio interrompeu a partida para pedir o fim das manifestações preconceituosas. Posteriormente, a entidade abriu um processo disciplinar contra a Federação Espanhola de Futebol pelos atos registrados no jogo.
Estagiária sob supervisão de Schirlei Alves*



