Se a verdade morre, o clima colapsa


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Por Mariana Franco Ramos*

A desinformação climática é uma das maiores ameaças à ação global pelo clima — e também aos direitos humanos. A circulação massiva de informações falsas ou distorcidas não apenas compromete políticas públicas e paralisa soluções urgentes, como mina um direito fundamental: o acesso à informação verídica, qualificada e baseada em evidências. Sem isso, não há debate público legítimo, não há democracia ambiental e, tampouco, há futuro possível.

A comunicação é, por definição, um direito humano. A publicação “Desinformação: ameaça ao direito à comunicação muito além das fake news”, do coletivo Intervozes, mostra que esse conceito não se resume à liberdade de expressão individual. Envolve o acesso coletivo à vida pública e à informação necessária para compreender e transformar o mundo. Quando o ecossistema informacional é sequestrado por algoritmos, interesses econômicos e campanhas de fake news, o impacto não se limita a reputações ou eleições. Ele compromete, igualmente, a resposta à emergência climática.

Não é exagero. Conforme o estudo “Information Integrity about Climate Science: A Systematic Review”, do International Panel on the Information Environment (IPIE), que analisou mais de 300 publicações entre 2015 e 2025, corporações, partidos e até governos espalham deliberadamente narrativas imprecisas sobre as mudanças climáticas. O objetivo é nítido: proteger interesses econômicos e desacreditar medidas que demandam regulação ambiental, justiça social e transição energética.

Esse “mercado-sistema”, como descreve o Observatório da Integridade da Informação – Clima e Meio Ambiente (Oii), abrange uma cadeia produtiva bilionária de mentiras: desde quem financia campanhas e compra anúncios, até plataformas digitais que lucram com o engajamento gerado por conteúdo sensacionalista e polarizante. Trata-se de um ecossistema complexo, que influencia políticas públicas e decisões estratégicas nos temas mais sensíveis da agenda climática brasileira e internacional.

Ainda que as plataformas digitais dominem esse cenário, os meios de comunicação tradicionais e hegemônicos também desempenham um papel crucial. A reprodução acrítica de narrativas empresariais, o falso equilíbrio entre ciência e negacionismo e a invisibilização de vozes indígenas e quilombolas enfraquecem o debate público e favorecem o ruído.

Essa lógica também afeta a cobertura de experiências que oferecem alternativas reais à crise climática. Em 2020, reportagem do observatório De Olho nos Ruralistas mostrou como doações expressivas de movimentos camponeses durante a pandemia — fundamentais para o combate à fome — foram pouco ou nada cobertas pelo principal telejornal do país. Ao mesmo tempo, ações numericamente irrelevantes promovidas por grandes empresas do agronegócio receberam ampla visibilidade.

Além de fortalecerem a soberania alimentar, práticas ligadas à agricultura camponesa e à agroecologia são apontadas por diversas pesquisas como mais sustentáveis do ponto de vista ambiental. Elas emitem menos gases de efeito estufa, evitam o desmatamento e aumentam a resiliência aos eventos climáticos extremos. Os impactos positivos desses movimentos sobre o clima, contudo, seguem frequentemente ignorados pela mídia hegemônica.

Setores do  agronegócio, que se vendem como “pop”, exercem papel central no ecossistema de desinformação no Brasil. Investigações da Agência Pública e do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) identificaram que empresas influentes da cadeia rural têm impulsionado anúncios com conteúdo enganoso ou negacionista sobre a crise climática, especialmente em redes sociais e plataformas de vídeo.

Não por acaso, o agro lidera quando o assunto é contribuição para o aquecimento global. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), mantido pelo Observatório do Clima, o sistema alimentar como um todo — da produção no campo ao consumo — foi responsável por cerca de 74% das emissões nacionais em 2021. A maior parte dessas emissões está ligada ao agronegócio, em especial à produção de carne bovina. A informação foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo.

Um exemplo emblemático aconteceu em março de 2025, quando uma matéria da BBC sobre a construção de uma estrada no Pará, próxima à área da COP30, viralizou como “prova” de que a própria conferência climática seria contraditória e destrutiva. Desinformadores usaram a técnica do cherry picking [seleção tendenciosa de dados] para transformar uma obra urbana planejada desde 2012 em um símbolo de hipocrisia climática. “Só” ignoraram que o Pará é campeão nacional de desmatamento e que mais de 90% da devastação na região é causada pelo avanço do pasto e da grilagem. O caso foi destaque na newsletter do Oii, assinada por Thais Lazzeri e Rafael de Pino.

Esse tipo de manipulação não busca esclarecimento, mas desmobilização. É uma ofensiva política e comunicacional com alvos definidos: a ciência, o jornalismo, os povos do campo, incluindo indígenas e quilombolas, o multilateralismo e as instituições democráticas. Para piorar, tem impacto direto no engajamento público com temas como transições justas, conservação de florestas e adaptação às mudanças climáticas.

A resposta da presidência brasileira da COP30

Diante dessa ofensiva organizada, a presidência da COP30 tem tomado importantes medidas. Durante a 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima (SB62), em Bonn, na Alemanha, o Brasil lançou oficialmente a “Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima”, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e a ONU. A proposta tem como objetivos fortalecer a produção de dados e evidências, apoiar o jornalismo investigativo, criar campanhas de comunicação fundamentadas na ciência e formar coalizões multilaterais contra a desinformação.

O governo brasileiro também nomeou um enviado especial para a Integridade da Informação na COP30: Frederico Assis, assessor especial da Presidência da República. Ao lado do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência, e do secretário de políticas digitais da Secretaria de Comunicação Social (Secom), João Brant, ele vai liderar iniciativas de conscientização e articulação política.

Embora a COP30 represente um avanço inédito ao institucionalizar uma resposta global à desinformação climática, o tema já vinha sendo pautado em edições anteriores. Na COP26, em Glasgow, a campanha “Climate Action Against Disinformation” reuniu mais de 250 organizações cobrando medidas das plataformas digitais. Já na COP27, no Egito, o relatório “Integrity Matters”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), alertou que a integridade da informação é essencial para o cumprimento das metas do Acordo de Paris. A diferença, agora, é que a presidência brasileira propõe uma iniciativa multilateral concreta sobre o tema.

Como afirmou a assessora sênior para Integridade da Informação da ONU, Charlotte Scaddan, no lançamento da proposta, “os agentes da desinformação não são marginais. Estão no centro do ecossistema informacional e usam a pauta climática para polarizar, desestabilizar democracias e sabotar soluções coletivas”.

A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, foi na mesma linha, lembrando que uma das estratégias da mentira é nos fazer duvidar do processo multilateral. Por isso, celebrar as conquistas já obtidas, como o Acordo de Paris, seria também uma forma de resistência.

Mais do que um erro pontual, a desinformação sobre o clima é sintoma de um sistema que privilegia interesses privados em detrimento do bem comum. Enfrentar esse desafio exige ação política firme, regulação justa e a garantia de um ambiente informacional saudável, plural e confiável — condição básica para que todas as pessoas participem das decisões que moldam o futuro do planeta. Se a verdade morre, o clima colapsa — e a democracia morre com ele.

 

*Mariana Franco Ramos é coordenadora de Comunicação da Plataforma CIPÓ





Fonte: ICL Notícias

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