Por Cleber Lourenço
A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas provocou surpresa e preocupação entre servidores da Abin ouvidos reservadamente pelo ICL Notícias. A avaliação é que o movimento amplia a pressão internacional sobre o Brasil em um tema que envolve segurança pública, diplomacia e soberania nacional.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou nesta quinta-feira (28) que Washington pretende designar as duas facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras a partir do próximo dia 5 de junho.
A medida também inclui o enquadramento dos grupos como “terroristas globais especialmente designados”, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para ampliar sanções financeiras, bloquear ativos e restringir operações ligadas a organizações consideradas ameaças internacionais.
O anúncio ocorre após semanas de pressão pública de aliados de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos. O senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta semana que pediu diretamente ao presidente Donald Trump que PCC e CV fossem enquadrados como organizações terroristas.
Entre servidores da Abin ouvidos pelo ICL Notícias, o anúncio foi recebido com preocupação não apenas pelo impacto político da medida, mas também pelas possíveis consequências práticas. Integrantes da área de inteligência afirmam que o enquadramento pode ampliar a atuação dos Estados Unidos sobre operações financeiras internacionais, empresas, fintechs, rotas logísticas e movimentações consideradas suspeitas pelas autoridades americanas.
Na avaliação desses servidores, existe preocupação de que o Brasil passe a atuar de forma reativa diante de decisões externas em um tema considerado estratégico para a soberania nacional.
Os relatos feitos ao ICL Notícias também apontam críticas à estrutura atual da inteligência brasileira. Segundo esses integrantes da área, restrições orçamentárias e baixo investimento em inteligência humana, produção de informação estratégica e redes de informantes vêm reduzindo a capacidade do Estado brasileiro de antecipar cenários complexos e movimentos internacionais dessa magnitude.
A avaliação dentro da inteligência é que o Brasil perdeu capacidade operacional nos últimos anos para monitoramento estratégico de ameaças transnacionais, especialmente em temas ligados ao crime organizado, fluxos financeiros internacionais e cooperação entre facções criminosas na América Latina.
O tema já vinha provocando divergências entre Brasil e Estados Unidos desde o ano passado. Em 2025, integrantes do governo Lula rejeitaram a possibilidade de classificar PCC e CV como organizações terroristas. Na ocasião, autoridades brasileiras argumentaram que as facções atuam com finalidade econômica e criminosa, sem motivação ideológica, religiosa ou política, critério normalmente utilizado para caracterização do terrorismo na legislação internacional.
Nos bastidores da segurança pública e da inteligência, a decisão americana é vista como um movimento que vai além do combate ao crime organizado. A leitura de servidores da Abin é que a medida também amplia instrumentos de pressão diplomática e financeira dos Estados Unidos sobre o Brasil em um momento de tensão política entre os governos Lula e Trump.
A preocupação ganhou força pelo fato de o anúncio ocorrer em meio ao acirramento do debate político brasileiro sobre segurança pública e crime organizado, tema que deve ocupar espaço central na disputa eleitoral de 2026.



