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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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‘Sou de esquerda porque sou crente’, diz evangélico agredido em vigília pró-Bolsonaro


Por Marcelo Santos*

O nome de Ismael Lopes, 34 anos, tomou conta das redes sociais desde sábado (22), ao lado da notícia da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pela Polícia Federal. Evangélico e integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Ismael esteve na vigília pró-Bolsonaro, um ato público convocado pelo senador Flávio Bolsonaro em frente ao condomínio onde o ex-presidente vivia, apresentado como um momento de “oração” e apoio político, que reuniu centenas de apoiadores.

Durante o ato, Ismael pegou o microfone e leu Eclesiastes 10:8, texto bíblico que afirma: “Quem cava uma cova cairá nela; quem derruba um muro será mordido por uma serpente”, um provérbio que alerta para o retorno do mal praticado contra o próximo.

Em seguida, acrescentou, ao lado de Flávio Bolsonaro: “Nós temos orado por justiça neste país. Temos orado para que aqueles que abrem covas caiam nelas. Não mortos, porque não é isso que desejamos. Desejamos que sejam julgados e condenados pelo mal que fizeram. Como seu pai, que abriu 700 mil covas durante a pandemia, seja julgado pelo devido processo legal, tenha seu direito de defesa, mas que seja condenado e responda pelos crimes que cometeu, assim como todos os aliados que colocaram essa horda de mal contra o nosso Estado.”

O discurso foi interrompido em seguida, o microfone lhe foi tirado das mãos e Ismael foi agredido e expulso do local aos gritos, empurrões e pontapés. O desembargador aposentado Sebastião Coelho o tomou pelo braço e o retirou à força enquanto bolsonaristas o xingavam. A situação só não terminou em violência maior graças à ação da Polícia Militar, que dispersou os mais exaltados com spray de pimenta.

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, grupo do qual Ismael faz parte, tem interlocução com o governo federal, em especial com a primeira-dama Janja.

Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, ele falou sobre suas motivações, bastidores do episódio e como enxerga o uso da fé por grupos da extrema direita.

Ismael Lopes. Foto: Gabriela Biló/Folhapress EVANGÉLICO
Ismael Lopes. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

ICL Notícias – Ismael, como surgiu a decisão de participar da vigília convocada em Brasília? Foi algo planejado, alguém o apoiou, ou você percebeu ali uma oportunidade para falar?

Ismael Lopes – A ideia inicial era só ir. Quando anunciaram a vigília, pensei: vou lá ver. Confesso que, num primeiro momento, tinha até um tom de galhofa. Mas, quando cheguei, percebi que havia espaço para falar: um pastor que estava na programação não apareceu, e acabei assumindo esse lugar.

Além disso, a palavra que foi dada antes de mim me incomodou profundamente, um tipo de fala que usa a Bíblia para legitimar coisas que, na minha visão, distorcem o Evangelho. Então, quando falei diretamente com o Flávio e ele liberou o microfone, eu fui.

Li o texto de Eclesiastes e fiz a reflexão que revelava a crítica — direta — ao ex-presidente Bolsonaro e ao que o cerca: seus filhos, parlamentares e todo esse projeto político.

Qual o clima daquela vigília?

Eu estava muito nervoso, claro. Você está cercado por mais de 200 pessoas num ambiente que não é o seu. Mas, ao mesmo tempo, isso me motivou: vi muita gente ali que não era militante raiz, mas membros regulares de igrejas, pessoas sinceras na fé.

A fala anterior usava muitos versículos e uma eloquência que, de fato, convence parte dos nossos irmãos e irmãs. Isso me incomodou e me deu coragem. Quando peguei o microfone, falei de maneira firme, porém não violenta, como os vídeos mostram. Mas o ambiente mudou rapidamente. O que era, a princípio, um clima simpático, virou hostilidade e violência.

Sobre sua formação evangélica: como você se tornou cristão? Quais igrejas frequentou, qual é sua trajetória de fé?

Nasci num lar evangélico. Minha infância foi na Assembleia de Deus. Na adolescência, me tornei batista através dos Embaixadores do Rei, um ministério para meninos e adolescentes. Passei pela Primeira Igreja Batista em Jardim Novo, fui membro da Igreja Batista Betânia e depois da Nossa Igreja Brasileira, que considero minha igreja do coração.

Hoje, como não estou mais no Rio de Janeiro, colaboro com a Igreja da Garagem, que foi quem me acolheu aqui [em Brasília]. Eu creio na importância da comunidade: estar junto, congregar, caminhar com irmãos e irmãs.

A fé é estruturante na minha vida. Eu não sei quem eu seria sem ela. Tudo que acredito sobre sociedade é atravessado pela fé cristã: pela política do Jubileu, pela partilha, por uma sociedade onde ‘tudo era comum’ e cada um recebia conforme a necessidade, como em Atos.

Minha formação política também nasce da fé. Eu só sou de esquerda porque sou crente.

Apoiadores de Bolsonaro estão dizendo que há uma “perseguição religiosa” após a prisão do ex-presidente. O que você pensa sobre isso?

Esse discurso de perseguição é muito presente na cultura evangélica, mas não corresponde à realidade. Mesmo em experiências socialistas, que muitos usam como referência equivocada, não há esse tipo de perseguição religiosa que se tenta pintar aqui.

O ponto é simples: não se trata de perseguição, mas de controle social para que não haja violências ou práticas criminosas. A igreja não pode se associar a projetos perversos ou ilegais. A igreja não pode ser racista, homofóbica, machista, misógina. A igreja não pode ser criminosa porque, além de crime, é pecado.

Então, quando o Estado age para impedir crimes ou responsabilizar quem os cometeu, isso não é perseguição. É garantia de que a sociedade funcione sem produzir injustiça e sofrimento.

Desde o ocorrido, você vem recebendo ameaças ou intimidações?

Depois do que aconteceu, não recebi ameaças diretas, nada muito específico. O que aparece são ameaças mais abstratas, genéricas: ‘você vai morrer’, ‘você é um verme’, ‘Deus vai pesar a mão’, esse tipo de coisa. Nada direcionado de forma objetiva à minha pessoa.

Por outro lado, o volume de mensagens de apoio é infinitamente maior, e isso me surpreendeu positivamente. Fiquei muito feliz com a reação de tanta gente, não apenas da minha base, mas de cidadãos em geral. Conversei, inclusive, com pessoas de direita que vieram dialogar de verdade, não para atacar. Trocamos ideias sobre política, sobre o que pensamos do país.

No balanço geral, considero o resultado positivo. Não estou sofrendo ataques diretos, não há grandes ameaças. Está tudo relativamente tranquilo.

 

*Especial para o ICL Notícias





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