Um a cada quatro estabelecimentos de saúde está próximo a áreas de risco climático


Por Luana Lisboa

(Folhapress) – Cerca de 29% dos estabelecimentos de saúde, 26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) brasileiros estão situados a até 500 metros de áreas de risco de desastre climático, aponta pesquisa do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde).

A proporção de estabelecimentos localizados próximo a setores de risco de desastre é ainda maior para as unidades de saúde vinculadas ao SUS (Sistema Único de Saúde): 35,58%, considerando pronto-atendimento de urgência, hospitais e UBSs (unidade básica de saúde).

Foram localizadas 78.404 unidades em 1.800 municípios mapeados pelo SGB (Serviço Geológico do Brasil), com o objetivo de identificar e caracterizar áreas urbanizadas suscetíveis a perdas ou danos decorrentes de eventos de origem geológica. A análise considerou tanto o potencial de danos físicos às estruturas quanto o risco de interrupção de serviços.

Dessas, 22.577 são unidades próximas a risco (até 500 metros). Um total de 2.039 estabelecimentos (2,6%) está localizado dentro das áreas de risco, comprometendo a capacidade de resposta imediata dos serviços de saúde em momentos de emergência climática.

De acordo com os pesquisadores, o SUS frequentemente atende populações em situação de maior vulnerabilidade social, que também tendem a residir em áreas mais suscetíveis a desastres naturais. A maior exposição da rede pública torna-se um achado crucial para o planejamento de políticas de prevenção e preparação.

Os desastres de risco considerado podem ser deslizamento de solo, inundações, alagamentos e enxurradas e erosão fluvial, marinha e de encosta.

35,58%, dos pronto-atendimento de urgência, hospitais e UBSs do SUS, estão próximo a setores de risco de desastre (Foto: Bruno Peres / Agência Brasil)

O que diz a pesquisa

Um achado importante, aponta a pesquisadora Bruna Borges, é que os pesquisadores usaram dados do censo de 2022. “A gente viu que nos setores censitários, nos quais tinham esses riscos de desastre natural, as características socioeconômicas eram de maior vulnerabilidade, pior acesso a condições de saneamento básico, com a estrutura da composição etária diferente”, diz.

A pesquisa aponta que há maior concentração de crianças e adolescentes (0 a 14 anos) em áreas de risco de desastre. O padrão preocupa, já que situações de crise podem gerar impactos duradouros no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional dessa população.

Isso reforça a probabilidade que desastres geológicos afetam de forma desproporcional grupos que mais dependem dos serviços públicos de saúde. A situação tende a ampliar desigualdades em contextos de emergência climática.

Dentre os pontos de limitação está a quantidade de 1.800 municípios brasileiros mapeados pelo SGB, de um total de cerca de 5.571, o que não inclui grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Além disso, o mapeamento abrange apenas riscos geológicos, excluindo outros tipos de desastres, como queimadas, secas e vendavais.

Adaptação das unidades de saúde

Do ponto de vista infraestrutural, os pesquisadores recomendam a modernização e adaptação das unidades de saúde, incluindo medidas físicas como a elevação de instalações acima de planícies de inundação, a construção de barreiras de proteção, a instalação de sistemas de energia reserva e o armazenamento seguro de insumos e medicamentos para garantir a continuidade do atendimento durante e após eventos extremos.

Essa semana o Ministério da Saúde lançou, durante a COP30, o Guia de Mudanças Climáticas e Saúde, reunindo orientações para prevenção, cuidado e vigilância em situações relacionadas a eventos climáticos extremos, como calor intenso, frio, poluição do ar, inundações e secas.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.





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