Ditadura brasileira infiltrou agentes na Argentina e Chile


* colaboração Francisca Skonik do Centro Latino-americano de Investigação Jornalística (CLIP)

No dia 10 de setembro de 1973, militares sob as ordens do Centro de Informações do Exército (CIE) finalizaram uma das mais ousadas ações clandestinas realizadas pela ditadura brasileira até ali: levaram ao sul do Chile, por meio da fronteira contra a Argentina, Eduardo Díaz Herrera e Pablo Rodríguez. Os dois eram líderes do Patria y Libertad, grupo paramilitar de extrema direita que teve papel central no golpe que derrubaria o governo do socialista Salvador Allende no dia seguinte.

A infiltração dos dirigentes do Patria y Libertad em território chileno foi o clímax da Operação Temuco, uma das seis criadas pela seção de contrainformação do CIE, sob o comando direto do coronel Cyro Etchegoyen, para infiltrar agentes duplos em países do Cone Sul – além do Chile, os infiltrados também atuaram na Argentina e no Uruguai.

As informações sobre os agentes duplos no exterior fazem parte de um dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

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Estadio Nacional / Adolfo Cozzi Figueroa. Santiago de Chile : Editorial Sudamericana, 2000 (Santiago : Andros)

Os detalhes sobre a infiltração de agentes no exterior estão em um relatório elaborado por Cyro Etchegoyen e outros oficiais do CIE em 1974, no início do governo Ernesto Geisel, como uma espécie de prestação de contas das atividades clandestinas realizadas sob a presidência de Emílio Garrastazu Médici.

O relatório tinha o objetivo de explicar os métodos de trabalho desenvolvidos pelo CIE para aniquilar a luta armada no país. Entre esses métodos, estava a cooptação de integrantes de organizações opositoras para transformá-los em agentes duplos infiltrados. É nesse contexto que são mencionados os agentes atuando em solo estrangeiro.

Outra peça desse quebra-cabeças vem de um caderno utilizado pelo coronel Cyro Etchegoyen para a contabilidade das ações do CIE entre 1969 e 1974. A caderneta registra pagamentos de passagens para Buenos Aires em setembro de 1973 e despesas com compra de revólveres para chilenos em fevereiro de 1974.

As ações de infiltração cooptaram desde autoridades de órgãos de repressão dos países vizinhos a imigrantes indocumentados. A colaboração com esses agentes no exterior tinha alguns objetivos básicos: monitorar as atividades de exilados brasileiros nos países vizinhos, obter informações sobre a política local e trocar informações com órgãos de repressão sobre militantes estrangeiros no Brasil.

Nesse sentido, o Chile era considerado a prioridade máxima pela cúpula do regime militar. E uma mudança de regime era considerada essencial para que a ditadura brasileira pudesse se vingar de uma das maiores derrotas impostas pelas organizações de esquerda que passaram à luta armada.

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Apoio ao golpe no Chile

No auge da Guerra Fria, o governo Salvador Allende era um enclave socialista em uma América do Sul dominada por ditaduras militares de extrema direita. Allende assumiu o governo chileno em novembro de 1970 após ser um dos poucos líderes socialistas eleitos por via democrática naquele período.

Mais do que uma arma retórica para sustentar que o fantasma do comunismo rondava o Brasil, o Chile de Allende virou um abrigo para exilados brasileiros. Por isso, ao perceber que um golpe militar era uma possibilidade real, o CIE acelerou os gastos com operações que pudessem auxiliar para que a deposição de Allende fosse bem-sucedida. Nos 70 dias que antecederam o golpe no Chile, os agentes sob o comando de Cyro Etchegoyen gastaram o equivalente a R$ 50 mil em contatos com Temuco e outros infiltrados que possuíam informações sobre o Chile.

Allende entrou de vez na mira da ditadura brasileira em dezembro de 1970. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) sequestrou o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, em plena Zona Sul do Rio de Janeiro. O sequestro durou 40 dias e só foi encerrado após a ditadura ceder. Em troca da libertação do diplomata, a VPR exigiu que 70 presos políticos fossem libertados. Eles foram abrigados no Chile de Allende em janeiro de 1971 e, de lá, passaram a articular ações no Brasil.

A deposição de Allende passou a ser vista como fundamental pela repressão no Brasil. Em um relatório da seção de contrainformação, liderada por Etchegoyen à época, há uma espécie de balanço das atividades do CIE com informantes infiltrados.  O documento de 68 páginas inclui informações até 15 de março de 1974 – momento crucial na integração dos aparatos de repressão de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, todos sob a tutela de ditaduras militares a partir dos anos 1970. Esse período também é o início do governo do presidente-ditador Ernesto Geisel.

O documento exaltou os resultados da Operação Temuco:

“No ano de 1973, destaca-se ainda a Operação TEMUCO, na qual tivemos a participação de elementos do partido clandestino chileno “PATRIA E LIBERTAD” nas atividades pré-revolucionárias que redundaram na queda de ALLENDE”, escreve Etchegoyen.

O relatório não nomeia os militantes do grupo fascista chileno que foram auxiliados, mas destaca a posição de comando do infiltrado Temuco e observa que ele era integrante do comando nacional do Patria y Libertad. O grupo chileno tinha três principais lideranças: Roberto Thieme e os já citados Pablo Rodríguez e Eduardo Díaz Herrera.

O nome da operação escolhida pelos agentes do CIE chama atenção: Temuco é uma cidade no sul do Chile e, dos três líderes do Patria y Libertad, somente Díaz Herrera mantinha vínculos com o lugar. Ele morava na região e iniciou sua atuação política em Temuco.

O portal Interferência, do Chile, contou trechos desse episódio. Após atravessarem a fronteira chilena com o auxílio do CIE, Díaz Herrera e Rodríguez foram levados por um helicóptero das Forças Armadas do Chile, operado por setores que apoiavam o golpe contra Allende, até a cidade de Temuco.

No relatório inédito do CIE de Etchegoyen é relatado que o auxílio aos dirigentes do grupo chileno já vinham acontecendo há tempos e renderam frutos importantes para a ditadura brasileira após Pinochet chegar ao poder.

“Estes elementos receberam treinamento na S/103/CIE; foram atravessados na fronteira por uma equipe de segurança e passaram a remeter informações sobre subversivos brasileiros no CHILE, culminando com um convite para a ida de nossos agentes a SANTIAGO, logo após a revolução, para identificação de estrangeiros presos no Estádio Nacional e outras prisões”.

No livro “O Brasil contra a democracia: A ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul”, do jornalista Roberto Simon, publicado pela Companhia das Letras, o autor também menciona detalhadamente o papel dos chilenos do Patria y Libertad  com os militares do CIE. Ao longo dos anos, Eduardo Díaz Herrera tornou-se um crítico do neoliberalismo e defensor da causa Mapuche. Atualmente, integra a Frente Ampla, demonstrando afinidade com líderes como Gabriel Boric. O ICL Notícias tentou contato com ele, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Como o ICL Notícias contou em outra reportagem da série “Bandidos de Farda”, semanas depois do golpe dois oficiais do CIE desembarcaram em Santiago: o major Victor de Castro Gomes, número 2 de Etchegoyen na seção de contrainformação, e o capitão Paulo Barreira participaram de interrogatórios de brasileiros e pessoas de outras nacionalidades que estavam presas no Estádio Nacional do Chile.

Além de fornecer informações sobre militantes brasileiros em solo chileno, Temuco fez a ponte entre o CIE e a repressão chilena, segundo o relatório.

Esse contato resultou em outra operação no Chile: os militares tiveram como outro informante uma pessoa batizada com o sugestivo codinome de Amistad (amizade em espanhol). De acordo com os registros de Etchegoyen, ele tinha uma posição de chefia no Serviço de Contrainformações do Ministério da Defesa do Chile.

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Ações na Argentina

O acervo de Etchegoyen revela os primeiros momentos da integração dos serviços de repressão das ditaduras do Cone Sul, ainda no início da década de 1970.

Se no caso dos chilenos Temuco e Amistad a motivação para colaborar com os militares brasileiras era classificada como “político-ideológica”, no caso de Lobo –um integrante de nível superior da Polícia Civil do Uruguai– ela era descrita como “financeira” –uma forma polida de descrever um suborno.

A ficha de Lobo deixa claro que ele recebia por mês um pagamento equivalente a cerca de R$ 2583,33.

O documento, no entanto, não os identifica com os verdadeiros nomes nenhum dos agentes no exterior.

Assim como fez no Chile, o CIE também manteve contatos com agentes de repressão e militantes de extrema direita na Argentina. Uma das operações foi batizada de Gênese II e envolveu o uso de residentes indocumentados em Buenos Aires para conseguir informações sobre o cenário político argentino.

No momento em que o documento foi confeccionado, a operação Gênese II ainda estava em fase de implantação. Para criar uma fachada para seu agente duplo, os militares do CIE disponibilizaram uma nova identidade, conseguiram um emprego em uma multinacional e criaram até mesmo um esquema clandestino para comunicações e transporte de material sigiloso desde Buenos Aires. Embora ainda em estado preliminar, a ação já começava a render frutos.

“Resultados obtidos até a presente data: Primeiros contatos com elementos de esquerda”, definiu o coronel na ficha de Gênese II.

Outro agente em Buenos Aires foi batizado de San Martin –provavelmente uma referência ao revolucionário José de San Martín, um dos patronos da independência argentina. Assim como ocorrera no Chile, era um dirigente de grupo político local..

Tratava-se de um dos fundadores do grupo Patria Libre. O agente duplo auxiliava, entre outras funções, na cobertura de outros agentes da ditadura brasileira na Argentina. Segundo Etchegoyen, o contato já havia rendido informações sobre “movimentos terroristas argentinos”.

O agente também teria fornecido informações sobre estado de saúde do presidente Juan Domingo Perón –que acabaria morrendo em julho de 1974– e sobre a influência que o último ditador argentino até ali, o general Alejandro Agustín Lanusse, mantinha sobre o exército portenho.

Em 1974, a Argentina vivia um curto hiato de governos civis ligados ao peronismo em meio aos ditadores militares que se revezavam no comando do país desde 1966.

Com a morte de Perón, sua esposa e vice, Isabelita Perón, assumiu a presidência. Ela seria deposta pelos militares pouco depois, em março de 1976. A segunda fase da ditadura argentina durou até 1983 e terminou com um saldo de aproximadamente 30 mil mortos e desaparecidos.





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