Envelhecimento saudável é inegociável: um trato com o tempo


Por Benedita da Silva*

Há quem trate o tempo como inimigo, prefiro firmar um acordo com ele. O tempo é compositor de destinos, e a melhor idade é uma de suas mais belas composições, não o fim da melodia, mas o instante em que revela tudo. Por isso, recebi sem espanto a provocação de que, aos 80 anos, já não teria tempo de servir ao meu povo.

Sou mulher, negra, ex-empregada doméstica, da favela do Chapéu Mangueira, e a vida inteira me disseram que não cabia nos lugares onde cheguei. O preconceito só troca de pretexto, é o gesto antigo de dizer a alguém que já serviu e não serve mais. Respondo como sempre, com trabalho, altivez e verdade.

Podem dizer por aí, e confirmo: Benedita da Silva é uma idosa assumidíssima, com orgulho. Cada um dos meus anos foi forjado na luta. Envelhecer não é doença nem defeito, é o tempo de quem resistiu, aprendeu e tem muito a oferecer. Participei de momentos históricos do nosso país, e chegar até aqui sem trair o que acredito me enche de alegria e me renova. Quem reduz alguém à sua idade revela a própria pequenez, não a do outro.

Não respondo a quem achou que me ofenderia, convoco milhões de brasileiros e brasileiras que trabalharam a vida toda e merecem viver a terceira idade com saúde plena. Penso na minha mãe e em tanta gente que carregou o Brasil nas costas, mas que, quando o corpo cansou, ficou sem amparo. Para essas gerações, o tempo não era aliado, era senhor implacável, e a idade avançada vinha como abandono.

Esse destino começa a mudar. Não basta somar anos à vida, é preciso preenchê-los com movimento, independência e o direito de sonhar com o futuro, de ver as novas gerações semeando os caminhos que abrimos. É uma transformação que devolve a quem envelhece o pertencimento e tem nome de política pública.

O governo do presidente Lula acaba de lançar, no Rio, o PADI Brasil, Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, a primeira estratégia nacional para levar saúde à casa do idoso que não pode mais sair, com R$ 163,2 milhões em 2026 e R$ 328,3 milhões em 2027. O cuidado vira direito de quem deu a vida ao trabalho, e a nova Caderneta da Pessoa Idosa, no Meu SUS Digital, reúne na mão das pessoas idosas seus registros de vacinas, exames e remédios.

A discriminação conservadora insiste em tratar a idade como sentença. A vida, porém, sempre fala mais alto. Sonhos não envelhecem, e o sonho de um país que cuida do seu povo atravessa gerações. Recebi-o de quem veio antes e o partilharei com quem vier depois.

Retorno ao acordo que firmei com o tempo. Que seja generoso comigo, e lhe serei fiel, zelando por nossas idosas e idosos como por quem se ama. Envelhecimento saudável é inegociável, é esse o trato. Sigo firme, ao lado do presidente Lula, por um Brasil onde a idade que avança não seja um fim, mas a plenitude de uma vida que vale a pena. Ainda estamos aqui, na luta enquanto o tempo nos der vida, que, para a alegria dos nossos, temos de sobra, graças a Deus.

*Deputada Federal (PT/ RJ)





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