Tarcísio contratou empresa investigada por elo com PCC


Por Cleber Lourenço

A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), vinculada ao governo Tarcísio de Freitas, formalizou em agosto de 2025 um contrato com a Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa investigada por suspeitas de ligação com estruturas financeiras apuradas na Operação Carbono Oculto, investigação que mira esquemas de lavagem de dinheiro e supostas conexões com o PCC.

O contrato da CPTM foi assinado no período em que a operação se tornava pública.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que o Contrato PE10425-01, destinado ao fornecimento de gasolina à estatal ferroviária, foi assinado entre os dias 25 e 29 de agosto de 2025. O acordo prevê o fornecimento de 25 mil litros de combustível durante 720 dias e possui valor estimado de R$ 162,2 mil.

Embora o contrato da CPTM tenha valor relativamente reduzido, ele foi formalizado no momento em que a investigação já produzia seus primeiros desdobramentos públicos.

Levantamento realizado pelo ICL mostra, porém, que a relação comercial da empresa com o governo paulista vai muito além da CPTM.

Os documentos identificados pela reportagem apontam que a Rede Sol acumulou ao menos R$ 66,8 milhões em contratos e aditivos com órgãos do governo de São Paulo entre 2023 e 2025.

Contrato milionário nas travessias litorâneas

O principal vínculo comercial da empresa com o Estado foi firmado em fevereiro de 2024.

O Departamento Hidroviário, vinculado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, assinou o Contrato nº 10/2024/DH com a Rede Sol para o fornecimento de óleo diesel marítimo e aditivos destinados às embarcações que operam nas travessias litorâneas paulistas.

O valor inicial do contrato foi de R$ 63.678.457,50.

Em abril de 2025, o governo paulista autorizou reajuste contratual após a empresa não aceitar proposta de redução do índice de correção apresentada pela administração estadual. O apostilamento autorizou despesa adicional estimada em R$ 1.183.873,20.

Poucas semanas depois, em maio de 2025, o Estado assinou o primeiro termo aditivo do contrato, elevando seu valor para R$ 66.638.140,50 e prorrogando sua vigência até agosto de 2026.

Em julho de 2025, já durante o avanço das investigações, a Secretaria de Meio Ambiente publicou portaria designando os fiscais responsáveis pela execução do contrato.

Contratos em diferentes áreas do governo

A documentação obtida pela reportagem mostra que a empresa também manteve relações comerciais com outros órgãos estaduais.

Em dezembro de 2023, a Polícia Militar do Estado de São Paulo adjudicou itens de pregão eletrônico à empresa em procedimento conduzido pelo Comando de Policiamento do Interior Nove.

Em maio de 2024, o Instituto de Zootecnia, vinculado à Secretaria de Agricultura, homologou aquisição de óleo diesel da empresa no valor de R$ 57,7 mil.

Em agosto de 2025, nova homologação da Secretaria de Agricultura destinou R$ 23,4 mil à empresa para aquisição de óleo diesel.

Já em novembro de 2024, o Hospital Guilherme Álvaro, da Secretaria da Saúde, homologou compra de óleo diesel para geradores no valor de R$ 18.930.

Contrato da CPTM foi assinado durante a operação

Foi nesse contexto que a CPTM formalizou seu contrato. As assinaturas dos representantes da estatal ocorreram entre os dias 28 e 29 de agosto de 2025. O diretor-presidente da empresa havia assinado o contrato em 25 de agosto.

A contratação ocorreu durante o período em que a Operação Carbono Oculto já se tornava pública e produzia seus primeiros efeitos.

O contrato prevê fornecimento parcelado de combustível ao almoxarifado da companhia na Lapa, em São Paulo, mediante ordens de fornecimento emitidas pela estatal.

O preço do combustível seria calculado com base na média semanal da Agência Nacional do Petróleo (ANP), aplicando-se desconto de 8,1% oferecido pela empresa.

Contrato prevê exigências de integridade

A própria documentação da licitação estabelece uma série de exigências relacionadas à integridade da empresa contratada.

A Rede Sol assinou declaração formal comprometendo-se a cumprir as normas anticorrupção, os códigos de conduta da CPTM e as políticas de integridade da companhia. A empresa também declarou que não realizaria pagamentos indevidos ou práticas fraudulentas.

O contrato determina ainda que a distribuidora mantenha, durante toda a execução do ajuste, as condições de habilitação exigidas na licitação.

Os pagamentos também ficam condicionados à inexistência de registros no Cadin estadual.

Histórico de apurações

A Rede Sol também aparece em um procedimento instaurado pelo Ministério Público de São Paulo.

O procedimento nº 42.0334.0000002/2023-0, em tramitação na Promotoria de Justiça de Mauá, trata de apuração relacionada a improbidade administrativa e supostas irregularidades em procedimento licitatório envolvendo a empresa.

A existência do procedimento antecede em cerca de dois anos a formalização do contrato da CPTM.

Outros contratos com o governo paulista

Embora o foco da reportagem seja o contrato da CPTM, a documentação levantada pelo ICL mostra que a relação comercial da empresa com o governo paulista vai além da estatal ferroviária.

A Rede Sol aparece em atos publicados no Diário Oficial envolvendo:

  • Secretaria de Agricultura e Abastecimento;
  • Secretaria da Saúde;
  • Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística;
  • Departamento Hidroviário.

A empresa também figura em contratos, aditamentos, apostilamentos e homologações publicados entre 2024 e 2025.

Entre os atos identificados estão o Contrato nº 10/2024 do Departamento Hidroviário, seus posteriores apostilamentos e aditamentos, além de aquisições de óleo diesel por diferentes órgãos estaduais.

Os documentos indicam que a empresa manteve relações comerciais contínuas com diversas áreas da administração paulista durante o período em que as investigações sobre o setor de combustíveis avançavam.

Perguntas sem resposta

O ICL Notícias encaminhou questionamentos à CPTM e ao governo do Estado de São Paulo.

A reportagem perguntou se a companhia ou a administração estadual tinham conhecimento das investigações envolvendo a empresa quando o contrato foi formalizado.

Também foram solicitados esclarecimentos sobre eventual análise de integridade ou compliance após a operação; consultas à Secretaria de Transportes Metropolitanos; comunicação com órgãos de controle; abertura de procedimentos internos; reavaliação do contrato; e eventual impacto das investigações sobre as condições de habilitação da empresa.

A reportagem também questionou se a coincidência temporal entre a formalização do contrato e a Operação Carbono Oculto produziu algum tipo de avaliação de risco dentro da administração estadual.

Até a publicação desta reportagem, a CPTM e o governo de São Paulo não haviam se manifestado. O espaço segue aberto.

Contrato permanece em vigor

A vigência do contrato é de 720 dias e a execução ocorre por meio de ordens de fornecimento emitidas pela companhia. O gestor designado pela CPTM é o gerente de logística Leandro Capergiani Moreira, responsável pelo acompanhamento do ajuste e pela interlocução com a empresa contratada.

A principal questão levantada pela documentação analisada pela reportagem não diz respeito ao valor do contrato, mas ao momento de sua formalização: a estatal paulista concluiu a contratação justamente quando a investigação que atingia o setor de combustíveis passava a se tornar pública e a produzir seus primeiros desdobramentos.

Empresa nega vínculos com investigação

A Rede Sol já negou publicamente qualquer relação financeira ou societária com o fundo Mabruk II e com empresas citadas nas investigações que atingiram o setor de combustíveis.

Em nota divulgada em junho deste ano, a companhia afirmou ser “absolutamente inverídica” a informação de que teria mantido relação financeira, econômica ou negocial com o fundo ou com outros agentes mencionados na operação.

A empresa informou que realizou, em novembro de 2023, uma emissão de notas comerciais no valor de R$ 30 milhões, operação que, segundo a companhia, foi conduzida de forma regular e em conformidade com a legislação.

A distribuidora também negou ter emitido debêntures no valor de R$ 190 milhões e afirmou que jamais manteve qualquer relação com o Mabruk II ou com organizações criminosas.

Segundo a nota, todas as informações financeiras relacionadas às operações encontram-se registradas nas demonstrações financeiras auditadas da companhia.

A empresa afirmou ainda que “jamais manteve qualquer relação com o Fundo Mabruk II e, sobretudo, jamais teve ou terá qualquer vínculo com o crime organizado”.

A companhia também sustenta que eventual associação de seu nome ao fundo decorre de interpretação equivocada das investigações.





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