As lutas antissistêmicas e seus vários passos


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Alguns têm afirmado que é mais provável a vinda do fim do mundo do que o fim do capitalismo. Essa afirmação, por irônica que seja, revela o gênio do capitalismo. Ele se instalou a partir do Ocidente e se impôs a todo mundo, até à própria China. Seu escopo é a acumulação ilimitada na falsa pressuposição de que os recursos da Terra sejam também ilimitados. Nada mais enganoso e mentiroso, como denuncia a encíclica Laudato Sì (n.106), pois a ciência demonstrou a Sobrecarga (Overshoot) da Terra cujos bens e serviços não renováveis e substanciais para a manutenção da vida estão se esgotando.

Precisamos, anualmente, para atender à voracidade desmedida dos países opulentos, de 1,7 Terra. Até quando a Terra suportará este saque sistemático não sabemos, mas ela já nos deu sinais de que está chegando aos seus limites, enviando-nos eventos extremos como a Covid-19, o aquecimento global e a profusão de vírus e bactérias.

O traumático é que não há um projeto de habitação da Terra à vista que poderia ser uma alternativa salvadora. Tudo indica que a seguir a dinâmica do capital com a utilização de todos os meios virtuais, especialmente a IA, conheceremos desastres ecológico-sociais, um mais grave que o outro.

Um pouco antes de morrer em 5 de junho de 2017, em Quito, François Houtart, entranhável amigo e conhecido sociólogo belga, conhecedor profundo da América Latina, deixou escrito um artigo inspirador do qual tomamos alguns pontos, pois são muito atuais. O título era: “O conteúdo das lutas antisistêmicas”. Para ele era claro que a luta não é apenas contra o neoliberalismo, mas contra o sistema do capital. Fino marxista e teólogo católico, legou-nos uma obra vasta que merece ser resgatada.

Em primeiro lugar, urge deslegitimar o capitalismo como o verdadeiro câncer da Terra que consome tudo o que pode, através de radical competição em vista do enriquecimento, o saque da natureza e a exploração da força dos trabalhadores. Isso significa, nas palavras de Houtart, lutar conta as novas fronteiras de acumulação: a agricultura camponesa, a ser transformada numa agricultura produtivista capitalista; a privatização dos serviços públicos; lucrar com as catástrofes naturais ou políticas. Esta deslegitimação deve ser antes econômica que ética.

Em segundo lugar, forjar os passos das lutas antissistêmicas.

O primeiro passo é formar a consciência da perversidade humana e ecológica do sistema do capital que vai além da dominação econômica e política; ele afeta a cultura e penetra no mais profundo das mentalidades. Não lhe interessam gestar cidadãos críticos, mas simples consumidores e espectadores passivos da história.

O fundamental é a articulação de todos os movimentos populares e parte de grupos políticos progressistas. Todos têm o mesmo adversário, enfatiza Houtart: o capital globalizado, especialmente o especulativo (que é a grande parte do capital) que nada produz a não ser mais dinheiro. Cada grupo mantém sua identidade, mas se articula e une contra o adversário comum. Importante, para somar forças, é articular-se com movimentos antisistêmicos do campo político. A luta deve se dar no local, na região e em nível nacional como foi reforçada pelos foros sociais mundiais. Dentro do grupo pensar um projeto de sociedade alternativo, ecodemocrático, popular, inclusivo de todos e começar a vivê-lo nos grupos como já se faz em tantos lugares.É uma semente. Mas é semente fecunda de uma nova sociedade.

Em terceiro lugar, os eixo de um pós-capitalismo ou de um ecosocialismo do século XXI.

Não se trata de impor uma doutrina a partir de cima, nem de falar de uma só alternativa. Trata-se de recolher o vivido, reconciliar teoria e prática num esforço coletivo em busca de uma utopia prática, valorizando as utopias mínimas, dos pequenos passos porque o povo não morre ou sofre amanhã, senão hoje.

Os quatro eixos do projeto antisistêmico e amancipatório:

O primeiro, a utilização sustentável dos bens e serviços naturais que exige não a exploração, mas a simbiose com a natureza.

O segundo privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca. O capitalismo fez de tudo objeto de troca em vista do ganho.

O terceiro eixo consiste em estabelecer uma democracia generalizada em todos os âmbitos além do político, que se entende como um ecosocialismo democrático. O poder não é centralizado, mas participativo e circular.

Quarto eixo construir a multiculturalidade, quer dizer, dentro da Casa Comum, todas as filosofias, religiões e valores culturais contribuem para criar uma nova sociedade do bem viver e conviver. A cultura do capitalismo com seu modelo de crescimento ilimitado não ajuda em nada nesta construção.

Tudo o que escrevemos é seminal. Mas tem a potência da semente que dentro de si guarda as raízes, o tronco, as folhas, as flores e os frutos, numa palavra, o futuro possível. Há que se viver o esperançar de Paulo Freire e recordar o oratório que um israelita compôs por ocasião do assassinato do Bispo Arnulfo Romero: “a esperança não se mata”.





Fonte: ICL Notícias

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