Vorcao e Ciro Nogueira: denuncia do ICL embasa inquérito


Por Alice Maciel, Cleber Lourenço e Flávio VM Costa

A Polícia Federal (PF) suspeita que uma aeronave de táxi aéreo tenha sido usada para o envio de dinheiro em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em um dos desdobramentos da investigação sobre a relação entre o parlamentar e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

As informações constam em documentos anexados ao inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça. Em um dos relatórios, a PF dedica um tópico específico ao tema: “Do possível envio de dinheiro em espécie por meio do modal aéreo”. Neste trecho, os investigadores citam a reportagem publicada pelo ICL Notícias em setembro do ano passado.

Em entrevista exclusiva, o piloto Mauro Caputti Mattosinho, ex-funcionário da TAP (Táxi Aéreo Piracicaba), contou ter transportado em voo de São Paulo para Brasília uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, no dia 6 de agosto de 2024.

A PF estabelece uma correlação temporal entre este voo e a elaboração do texto da emenda de projeto de lei que beneficiaria o Banco Master, que ficou conhecida como “emenda Master”.

Segundo os autos, o texto da proposta foi elaborado em 30 de julho de 2024. No dia 6 de agosto, ocorreu a viagem mencionada por Mauro Mattosinho e sete dias depois a versão final da minuta foi entregue na residência do senador Ciro Nogueira, em Brasília.

“Embora o relato do piloto acerca do suposto transporte de numerário no voo de 06/08/2024 decorra de reportagem jornalística e ainda careça de comprovação material quanto à efetiva entrega de valores ao senador Ciro Nogueira, os fatos narrados pelo piloto Mauro Caputti Mattosinho apresentam relevância contextual e cronológica, bem como se mostram compatíveis com o cenário investigado, especialmente quando analisados em conjunto com os demais elementos informativos já apresentados”, observou a Polícia Federal.

Exatamente um ano depois dos fatos denunciados por Mattosinho, em 6 de agosto de 2025,  o piloto fez outra viagem de São Paulo para Brasília, na mesma aeronave, de matrícula PR-SMG. A data coincide com uma conversa entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, sobre tratativas de pagamento em espécie a Ciro Nogueira. No entanto, não há indícios de que Mattosinho tenha transportado dinheiro durante este voo.

Na troca de mensagem anexada nos autos, Vorcaro aciona Zettel, que é apontado como operador financeiro do esquema do Master, “para resolver Ciro” e pedindo para “mandar lá agora”. Ao ser questionado sobre valor de uma transação, Zettel responde: “espécie Ciro 350K”.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Ciro Nogueira não se pronunciou.

Suspeita dialoga com apuração sobre mesada

A anotação “Espécie Ciro 350K” também dialoga com outra frente da investigação: a suspeita de pagamento de mesada a Ciro Nogueira.

Durante a 5ª fase da Operação Compliance Zero, documentos da PF apontaram que o esquema investigado revelaria quatro frentes de supostos benefícios concedidos ao senador por Daniel Vorcaro. Uma dessas frentes seria o pagamento de uma mesada que poderia variar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais.

Assim, para a PF, o registro de um pagamento em espécie de R$ 350 mil a “Ciro” não aparece como fato isolado. Ele surge em um contexto em que os investigadores já analisavam supostos repasses periódicos e vantagens financeiras atribuídas ao senador.

O voo revelado pelo ICL

Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias em setembro do ano passado, usada para embasar o relatório da PF, Mauro Mattosinho contou detalhes do voo em que o nome de Ciro foi citado por passageiros. Segundo ele, a sacola que aparentava ter dinheiro viajou no toalete do bimotor que fez o trajeto de São Paulo para Brasília, com escala no Rio de Janeiro, em 6 de agosto de 2024.

Durante o voo, o empresário estava na companhia de Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, suspeito de liderar um esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio de postos de combustíveis. Segundo Mauro, Beto Louco mencionou a outros passageiros que iria encontrar com o senador Ciro Nogueira.

“(Eles) portavam uma sacola de papel. Aquela sacola de papel me foi apontada por pessoas da empresa como uma sacola que deveria ser especialmente cuidada. É esse tipo de comunicação se dava para que nós entendêssemos que ali continha dinheiro.”

O alerta de cuidado teria sido dado por Epaminondas Chenu Madeira, o dono da empresa de táxi aéreo, segundo o relato do piloto.

A investigação da PF mostra que Vorcaro tinha em seu celular o contato telefônico de Madeira. Documentos revelam ainda que o ex-banqueiro pagou por voos realizados em 2020 pelo jato executivo PR-SMG, mesmo jato que Mattosinho teria transportado a suposta sacola de dinheiro. Também foi essa aeronave que Mauro conta ter viajado pelo menos 30 vezes com Beto Louco e seu sócio também investigado, Mohamad Hussein Mourad, o “Primo.

Nesta terça-feira (16), o ICL Notícias voltou a entrevistar Mauro Matosinho. O piloto afirmou que ouviu menções a um “banqueiro” durante conversas ocorridas na sede da TAP.

“O que a gente ouvia com frequência nas operações de táxi aéreo por parte do Beto Louco e dos executivos da Reag era menção ao ‘banqueiro’. Esse banqueiro não era mencionado por nome. O que se mencionava eram encontros, inclusive teve festa à noite em Brasília promovida por Antonio Rueda em que Beto esteve e que ele mencionava que o banqueiro estaria. Era esse tipo de conversa que envolvia esse personagem, o banqueiro”.

Procurada, a defesa de Beto Louco informou que “em relação ao suposto transporte de recursos mencionados nas matérias jornalísticas veiculadas na tarde desta terça-feira (16), a defesa nega a existência desses fatos e repudia qualquer tentativa de vinculação dele com Daniel Vorcaro e registra que ele nunca sequer deu “um bom dia” ao ex-banqueiro ou a pessoas ligadas a ele.”





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