Eileen Wang, de 58 anos, agora ex-prefeita de Arcadia, um condado na Califórnia, nos Estados Unidos, renunciou ao cargo após confessar ter atuado ilegalmente para o governo chinês diante de acusações federais. Wang aceitou um acordo judicial no qual concorda em se declarar culpada da acusação criminal e pode ser condenada a até dez anos de prisão.
Integrante do Partido Democrata desde 2022, Wang havia assumido a chefia do Executivo municipal em fevereiro deste ano. Além da renúncia à prefeitura, ela também deixará sua cadeira no conselho municipal da cidade, onde atuava em um esquema de rodízio, segundo o gabinete do administrador da cidade, Dominic Lazzaretto. O caso veio a público na segunda-feira (11), após a divulgação de documentos judiciais pelas autoridades norte-americanas.
Arcadia é uma cidade de maioria sino-americana. A 20km da capital, no subúrbio de Los Angeles, a cidade tem cerca de 53 mil habitantes, com predominância de moradores de origem asiática, tendo uma alta concentração de residentes chineses.
A ex-prefeita compareceu ao tribunal federal, onde o juiz responsável determinou que defesa e acusação estabeleçam uma data para formalizar a confissão de culpa. A Justiça fixou fiança de US$ 25 mil, o equivalente a cerca de R$ 122 mil.
O acordo firmado pela defesa e apresentado em 1º de abril esclarece que Wang reconheceu ter atuado como agente da China sem informar previamente o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, como exige a legislação do país. Segundo os autos, entre 2020 e 2022, período em que foi eleita para o conselho municipal de Arcadia, Wang promoveu conteúdos favoráveis ao governo de Pequim sob “direção e controle” de autoridades chinesas.
As investigações apontam que a parlamentar participou da administração do site U.S. News Center, apresentado como um portal voltado à comunidade chinesa nos Estados Unidos. Para os promotores, porém, a plataforma funcionava, na prática, como um instrumento de propaganda do governo chinês.
Ainda conforme os documentos judiciais, autoridades ligadas ao regime enviavam orientações diretas sobre os conteúdos publicados no site. Entre os materiais divulgados estavam textos contestando denúncias internacionais sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur, na região chinesa de Xinjiang.
Mensagens anexadas ao processo mostram que Wang recebeu elogios de um representante do governo chinês por sua atuação e respondeu: “Obrigada, líder”.
O caso também envolve Yaoning Sun, de 65 anos, identificado por Wang em determinado momento como seu noivo e que atuou como conselheiro financeiro de campanha. Sun foi condenado em fevereiro deste ano a quatro anos de prisão após admitir, em outubro de 2025, ter operado como agente de um governo estrangeiro.
Outro nome mencionado pelos promotores é John Chen, apontado como integrante de alto escalão da estrutura de inteligência chinesa e descrito em documentos judiciais como alguém que chegou a se reunir com o presidente Xi Jinping. Em 2024, Chen foi condenado a 20 meses de prisão após reconhecer envolvimento em crime semelhante.
Em nota, os advogados de Wang afirmaram que a ex-prefeita “pede desculpas e lamenta os erros cometidos em sua vida pessoal”. Já o procurador federal Bill Essayli declarou que indivíduos que “secretamente cumprem ordens de governos estrangeiros” representam uma ameaça às instituições democráticas do país.
“Este acordo de confissão é o mais recente sucesso em nossa determinação de defender a pátria contra os esforços da China para corromper nossas instituições”, afirmou o procurador.
Por outro lado, o representante municipal de Arcadia, Dominic Lazzaretto, declarou que os atos investigados teriam ocorrido antes de Wang assumir funções públicas no governo local, em dezembro de 2022. Segundo ele, não houve uso de recursos públicos nem interferência administrativa da prefeitura.
O caso é investigado pelo FBI e faz parte de uma apuração mais ampla conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre possíveis operações de influência estrangeira e atuação de agentes vinculados ao governo chinês em solo americano.



