Por Cleber Lourenço
A explosão registrada no dia 11 de maio durante obra da Sabesp em uma comunidade do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, acabou expondo problemas que, segundo moradores da rua Doutor Benedito de Moraes Leme, já faziam parte da rotina do bairro havia meses: falta de água quase todas as noites, aumento expressivo nas contas e danos causados por obras nas ruas da comunidade.
Moradores afirmam que, há cerca de seis meses, o abastecimento começou a falhar diariamente no início da noite e só retorna no dia seguinte.
“Quando falta, é todo dia, toda noite. Vou dormir, não tomo banho nem nada”, relata a aposentada Maria Vilma Rodrigues dos Santos.
Segundo ela, os problemas começaram após a troca dos hidrômetros e mudanças feitas na rede da região.
“Depois que colocou esse aí, ficou caro. Sem usar, vem caro. Não adianta, pode usar”, afirma, mostrando contas que passaram de cerca de R$ 50 para quase R$ 300 em poucos meses.
A dona de casa Julieta da Silva Trindade relata situação semelhante. Pensionista, ela afirma que passou a receber contas superiores a R$ 1 mil após a substituição dos relógios.
“Eu só ganho mil. Não tenho como bancar isso. Eu vivo doente, tomo remédio. Não tenho da onde tirar”, afirma.
Segundo Julieta, moradores chegaram a procurar a companhia para questionar os valores cobrados, mas não receberam solução.

“Falaram que estava em análise. Que vinham ver. Depois não vieram mais”, relata.
Além da falta de água e do aumento nas contas, moradores afirmam que as intervenções deixaram excesso de ar nas tubulações, o que estaria provocando danos em chuveiros, torneiras e nos próprios sistemas internos das casas.
“Meu chuveiro chega a quebrar quando vem o pipoco da água”, diz Maria Vilma.
O filho da aposentada afirma que o problema se tornou recorrente após as obras realizadas na comunidade.
“De manhã tem uma explosão de ar que danificou torneira, danificou chuveiro”, afirma.
Segundo ele, o retorno da água misturado com ar estaria elevando artificialmente os registros de consumo.
“A gente já gasta um absurdo pelo ar”, relata.
Outra moradora, após as intervenções da Sabesp.
“Como que vai pagar uma conta de 10 mil reais que a gente não usou?”, questiona.

Ela afirma que procurou atendimento da companhia em diferentes unidades, mas ouviu que os relógios estariam funcionando normalmente.
“Eles falaram que tava certo, que o relógio tava rodando normal”, relata.
Segundo Emilayne, a família acumula mais de dez contas atrasadas e acredita que a própria companhia reconhece problemas nas cobranças.
“Se não cortaram, é porque sabem que tem algo errado. E se cortarem, iremos à Justiça”, afirma.
A explosão registrada na comunidade ampliou ainda mais a revolta dos moradores. Maria Vilma afirma que o impacto foi tão forte que chegou a balançar a estrutura da casa.
“Foi um susto de morrer. O sofá subiu comigo e balançou tudo”, lembra.
Segundo ela, o cheiro de gás já tomava conta da rua horas antes do acidente.
“Desde as duas horas já tava saindo gás e tava cheirando ruim na rua”, relata.
Moradores também criticam as condições das ruas após as obras realizadas pela companhia. Em diversos pontos da comunidade, o asfalto apresenta remendos, desnivelamentos e buracos deixados após intervenções nas tubulações subterrâneas.
Procurada pela reportagem, a Arsesp afirmou que monitora reclamações envolvendo aumento no consumo após substituição de hidrômetros e confirmou que vem estruturando ações regulatórias para fiscalizar os processos de medição e faturamento adotados pela Sabesp.
Segundo a agência, desde a privatização da companhia, em julho de 2024, já foram realizadas mais de 1,1 mil ações de fiscalização relacionadas aos serviços prestados pela empresa.
A Arsesp afirmou ainda que, caso sejam identificadas falhas técnicas na prestação do serviço, poderão ser aplicadas medidas administrativas, incluindo multas. A agência também informou que consumidores têm direito à devolução em dobro de valores cobrados indevidamente, conforme previsto na regulamentação do setor.
Sobre a explosão registrada no Jaguaré, a agência afirmou que recebeu documentos das concessionárias envolvidas e que o material está em análise.
A Sabesp foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta matéria.



