Por Cleber Lourenço
“Ontem eles perderam o marqueteiro, hoje perderam o candidato.” A frase do líder da bancada do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), sintetiza a reação de parlamentares governistas após a divulgação de mensagens, áudios e documentos que mostram uma relação próxima entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
O material divulgado pelo Intercept Brasil mostra conversas em que Flávio trata Vorcaro como “irmão”, agradece pelos aportes financeiros ligados à produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e cobra novos repasses para evitar o colapso do projeto audiovisual.
Em uma das mensagens divulgadas, enviada um dia antes da prisão de Vorcaro pela PF, Flávio afirma: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz”.
As conversas também mostram preocupações sobre atrasos em pagamentos, manutenção de contratos com atores, diretores e integrantes da produção. Segundo o Intercept, o projeto previa um aporte milionário de recursos ligados a Vorcaro.
Para Pedro Uczai, o conteúdo ultrapassa a esfera de amizade pessoal e revela uma relação de dependência política e financeira.
“As mensagens revelam intimidade, dependência financeira e cobrança por novos repasses. Flávio chamava Vorcaro de ‘irmão’, agradecia dizendo que ‘tudo isso só está sendo possível por causa de vc’ e pedia socorro para não perder contrato, ator, diretor e equipe”, afirmou.
Nos bastidores do Congresso, parlamentares governistas avaliam que o episódio pode se transformar em um dos principais desgastes do bolsonarismo na pré-campanha presidencial de 2026. A leitura é que o caso deixa de ser apenas uma investigação financeira envolvendo o Banco Master e passa a atingir diretamente o núcleo político da família Bolsonaro.
O vice-líder do governo Lula na Câmara, deputado Rogério Correia (PT-MG), passou a defender publicamente a instalação imediata de uma CPMI para investigar o caso.
“CPMI já. O Congresso tem que abrir comissão especial, escancarar o que foi o acordo feito entre a extrema direita bolsonarista e o centrão agarrado à sua defesa nas asas do Ciro e do Banco Master. Agora está claro porque aprovaram dosimetria e querem enterrar a CPMI do Master. A casa caiu”, declarou.
A fala reforça uma nova estratégia adotada por setores do PT: ligar diretamente o caso Banco Master à articulação política da direita no Congresso, especialmente após a aprovação do projeto da dosimetria.
Governistas passaram a sustentar, nos bastidores, que a resistência para avançar com investigações envolvendo o Banco Master teria relação com interesses políticos de setores do Centrão e da oposição bolsonarista.
No Senado, a líder do PT, senadora Teresa Leitão (PT-PE), também elevou o tom e afirmou que o escândalo já atinge diretamente o projeto eleitoral do clã Bolsonaro.
“Os conteúdos revelados demonstram que o caso Bolsomaster está impregnado pelo clã bolsonarista. Flávio Bolsonaro chega à disputa presidencial com mais do que um capítulo, mas com um filme de corrupção que começa a ser exibido em praça pública”, afirmou.
A repercussão do caso provocou forte reação entre parlamentares governistas porque as mensagens divulgadas pelo Intercept ajudam a conectar elementos que, até então, apareciam de forma separada no debate político: Banco Master, Daniel Vorcaro, financiamento milionário, articulação política do Centrão, investigação da PF e o projeto eleitoral do bolsonarismo para 2026.
No entorno do governo Lula, a avaliação é que o episódio tem potencial de produzir desgaste prolongado para Flávio Bolsonaro justamente por reunir elementos considerados politicamente explosivos em Brasília: dinheiro, relação pessoal, bastidores de campanha, investigação federal e vazamento de mensagens privadas.
Até o momento, Flávio Bolsonaro não comentou publicamente o conteúdo das mensagens divulgadas.



